segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

is silence violence?

No fim do ano passado, eu e meu namorado compramos as duas primeiras temporadas de Muppets Show de um amigo nosso que estava de mudança para o Reino Unido. Os dvds, entretanto, eram da região 1 e meu aparelho bloqueado deixou-me ver a primeira temporada, mas com ressalvas. Não posso mais mudar a região do dvd player com o risco de só conseguir ver filme ou do Canadá ou dos Estados Unidos. Ontem, tentamos ver se funcionava no aparelho do meu namorado e, para a nossa surpresa, sim, funcionava (não no aparelho principal, mas num outro, secundário).

Vimos um episódio com a Twiggy cantando "In my life" dos Beatles, em 1977. Achei bastante melancólica a apresentação.

Depois do almoço, acabei dormindo muito, principalmente por causa do calor. Eu poderia hibernar ao contrário: passar esse período de temperaturas a 35ºC, escondida numa caverna - resfriada. Ou numa piscina, ou na praia. Mas não com o ar poluído e seco de São Paulo...

Quando finalmente acordei, resolvemos ver "Persona", de 1966, do Ingmar Bergman. A Gabi havia me dito que é um filme - se existe isso - no topo de sua lista de filmes favoritos. Fiquei ainda mais ansiosa para vê-lo, além de gostar muito do Bergman.

O filme é esteticamente maravilhoso. Cada cena poderia ser uma fotografia unicamente e ser linda à parte do restante. Juntas, elas se completam de um modo misterioso, porque Bergman parece absolutamente lúcido em suas escolhas de imagens.

A estética, no entanto, só faz sentido por causa do roteiro. Não fui ver Avatar, nem pretendo, porque não ouvi ninguém dizer que tem um roteiro novo ou uma história impressionante. São pirotecnias, efeitos técnicos inovadores que podem criar uma nova geração de filmes, mas não me convencem para além disso. Se é só para ver pessoas (ou algo parecido) atuando em três dimensões, eu compro ingresso em qualquer teatro e pronto, não me preocupo com história nenhuma.

A história de "Persona" parece difícil, truncada. Não é um filme fácil, digamos. São duas personagens: a atriz que, enquanto encenava "Electra" no teatro, é acometida por um acesso de riso e resolve nunca mais falar e uma jovem enfermeira que deve cuidar da atriz. Começam a criar uma intimidade enorme nessa relação em que as conversas são monólogos, quase solilóquios. Uma passa a se confundir com a outra, de modo sutil, que nos parece insano em suas interpretações.


O que Bergman quis dizer? Arrisco palpites, nada mais que isso. Uma atriz que percebe o quanto finge, sobretudo enquanto interpreta uma filha apaixonada e delega seu filho aos outros na vida real. Uma enfermeira prestes a se casar, entre o trabalho e a vida a dois, entre o passado de um aborto e o sonho de ter sua casa repleta de crianças. Uma começa a completar a outra em suas faltas, em seus sentimentos mais obscuros. O silêncio da personagem principal não é monótono: é instigante. O que cansa são as falas sem interrupção da outra personagem. Logo, o que atrai nesse filme é justamente o silêncio.


Se isto existe, posso dizer que "Persona" virou meu filme favorito sem muito esforço.

7 comentários:

  1. Nossa, realmente um relato impressionante, deve ser legal! E imagino só que sonho louco tu tivesse pro meu post ter te lembrado dele! ;D!

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  2. thank you for sharing the video of Twiggy singing. you know, i had no idea she could sing. some people just ooze with talent, i tell ya! :D

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  3. Persona é difícil. Só digo isso. E você já disse.

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  4. Adoro Persona. Para mim, um dos melhores filmes do Bergman.

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  5. Já ouvi falar sobre o filme mas nunca o vi. Dos filmes que assisti do Bergman, gostei mais de O Sétimo Selo e Morangos Silvestres.

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  6. Eu me envergonho, mas confesso: não consigo assistir facilmente filme antigo.
    É difícil conseguirem me convecer a assistir, mesmo sabendo que já tive grandes surpresas assim. Só que me acostumei demais com a geração HD e é comum eu escolher os filmes pelas imagens e cores D: Aiceus, preciso tomar jeito.
    Nunca tinha visto a Twiggy cantando :O

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  7. Não sou entusiasta de AVATAR e essas tecnicidades;

    no entanto, devo apontar aqui como é uma experiência absolutamente diferente da do teatro. Não é porque é tridimensional que é cênico, nesse sentido, ou que não é decupado, ou que não é etcetcetc.

    Para começar, é gigantesco, e teatro não é assim, e sabemos bem que o tamanho da tela influi muito no que é ou deixa de ser.

    Ao passo que a tal história... Avatar é justamente um escravo dessa "necessidade de história".

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