domingo, 7 de fevereiro de 2010

a escada espiral


A Flávia me entregou o livro "A escada espiral" e disse que leu e que queria que eu lesse - não soube explicar o porquê, apenas pediu para eu ler. Tão logo eu terminei a leitura de "Cinema no mundo - África", comecei o outro.

Durante duas semanas, Karen Armstrong foi minha mais fiel companhia no metrô, quando ia pro trabalho e quando eu conseguia ficar sentada na volta dele. Li também à noite em casa, o que me deixou com um pouco de peso na consciência por não estar lendo o que gostaria de pesquisar na faculdade, e em duas semanas, em janeiro, terminei suas trezentas-e-poucas páginas.

Foi difícil para mim ter uma opinião sobre ele, tanto quando estava no início da leitura, quanto quando fui chegando ao fim dela e agora pretendo me debruçar um pouco mais sobre aquelas páginas. O livro é uma autobiografia de uma ex-freira, que estudou em Oxford e hoje em dia - de acordo com a orelha de capa - participa de documentários na televisão britânica, além de ter escrito muitos outros livros. (a controversa wikipedia tem um artigo sobre a autora - prefiro sempre a versão em inglês).

Apesar de contar suas experiências no convento, na faculdade, em alguns empregos, o livro não se resume a um "eu fui", "eu sou", "eu gosto". Karen se aprofunda em alguns temas pelos quais ela passou e diz como depois de sair do convento viveu no mundo crítico dos anos 70, ou do que foi a Era Tatcher na Inglaterra, em seus termos mais práticos, focados na sua experiência e sem ignorar a figura da estadista.

O título do livro vem de um poema do Elliot, chamado "A escada espiral", e ilustra muito bem o que ela escreve. É gostoso terminar a leitura e ver que ela deu um sentido para o que podia ter se perdido no meio da sua narrativa - o poema é citado algumas vezes e ela compara a trajetória do poeta na Quarta-feira de Cinzas à sua vida.

Discordo um pouco da sua concepção das Cruzadas pela visão que acabei tendo na faculdade, de que não foi apenas uma época de extermínio, mas de muita integração e comércio entre povos no Oriente e no Ocidente. Acho que o grande problema do termo "Cruzadas" é a conotação que damos hoje, que damos com ataques terroristas, com extremistas religiosos (e isso inclui judeus, cristãos e muçulmanos), tentando retomar uma interpretação de guerras santas medievais. De modo geral, no entanto, percebi que concordo com muito do que ela trata no livro.

Ao longo de sua trajetória, Karen Armstrong buscou aproximar as três principais religiões monoteístas (cristianismo, judaísmo e islamismo) em seus termos comuns, como a compaixão. Não quero soar proselitista, continuo na minha posição de agnóstica (não digo convicta porque seria quase uma contradição), mas agrada-me muito sua visão de que deus não é um ser personalizado, nosso próprio reflexo, e sim uma experiência transcendente que varia conforme cada pessoa e em cada religião. Os ritos sagrados não são feitos para punir, mas para permitir uma espécie de encontro consigo mesmo e com a divindade. Os ritos têm uma razão e não são meramente uma didática mal encaminhada.

De algum modo, seus estudos e suas opiniões me deixaram mais tolerante com religiões, embora me mantenha longe de qualquer uma (coisa que me parece que ela mesma faz, não se aproxima de nenhuma como uma verdade absoluta). E lembrei-me de que, certa vez, em algum debate na Tv Cultura, ouvi um especialista falando "Religião não é coisa de gente burra. É coisa de gente".

7 comentários:

  1. Nossa, adorei essa ultima frase. Realmente, o homem tem uma necessidade muito grande de se apegar a algo maior, pra dar sentido as coisas pequenas da vida e as injustiças diárias. Tenho uma relação complicada com a religião e espero esclarece-la um dia. Ou não né? Nunca se sabe. Fiquei com vontade de ler esse livro, parece bem apaixonante.

    ps. Eu já disse o quanto eu to gostando do teu blog? Sério é um dos meus preferidos! ;)

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  2. Interessante o livro, embora não seja muito fã de (auto)biografias.

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  3. Laís: Não diria que é um livro apaixonante, mas sim interessante. Apaixonantes eu estou achando os contos da V. Woolf. E muito, muito obrigada pelo elogio ao blog. Até sorri, de verdade.

    Pedro: Autobiografias, ou biografias em geral, nunca me atraíram muito, até porque acho a maioria uma autopromoção imensa e chata. Com muitas pessoas que simplesmente vivem e não têm nada de muito interessante para acrescentar à minha vivência. Mas esse livro me chamou a atenção por isso, por não ser um "eu, karen, blablablá". Estou lendo a autobiografia do Mandela (em porções homeopáticas) para entender um pouco mais de África do Sul e não pra idolatrá-lo simplesmente como muitos fazem, sem crítica alguma.

    =)

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  4. Bem, deixo meu comentário como leitor normalmente quieto deste lugar que meus "autoconhecimentos" são livremente inspirados no modo como você leva cá seu blogue :)

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  5. I have been hunting everywhere for this! Finally I found your post on Yahoo.

    Thx

    ALISSA
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  6. Oi Babi,

    curti seu blog e desse post, especificamente. Virei atrás de indicações de leitura.

    C.

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