segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Le mur

bronzeada

 Namorado me emprestou O muro, do Jean-Paul Sartre há algum tempo e terminei faz pouco mais de uma semana. Vou aproveitar que o livro ainda está comigo para fazer alguns comentários a respeito; aliás, foi justamente por isso que eu não o tinha devolvido ainda...

Quando eu estava no último ano do colégio, meu professor de filosofia passou uma lista de livros que leríamos e sobre o qual faríamos prova ou trabalho a respeito. Nessa lista, estava A náusea, do Sartre. Mas a lista acabou sendo esquecida (forçosamente) porque os alunos começaram um "mimimi ano de vestibular". Eles queriam que as leituras fossem mais fáceis e, de preferência, só com livros que caíriam nos vestibulares da USP e da Unicamp. Claro que não foi feita uma enquente para saber quantas pessoas se debruçaram sobre Sagarana ou A rosa do povo com afinco. Sobre Iracema eu particularmente duvido que alguém tenha despendido muito carinho. Livro-mais-chato-da-vida. Pedi ao professor emprestado o A náusea, mas ele só tinha a versão em francês e não achei exemplar algum nos sebos em que procurei. Passei, então, sem Sartre.

O muro não é um livro de filosofia em si, mas um livro de literatura. Não acho que as duas coisas sejam indissociáveis, mas digo isso para deixar claro que não é um livro teórico, e sim um livro com cinco contos, independentes entre si.

A figura de um muro está presente nos dois primeiros contos. No entanto, a ideia de muro é mais forte do que a palavra com as suas quatro letras. Acho que talvez exista um problema de tradução, porque "mur" em francês pode ser traduzido também como "parede". Os contos trazem reflexões muito íntimas, o desenrolar de cada história carrega os desejos mais puros e cruéis de seus protagonistas. Ainda que muitas vezes repletos de uma fantasmagoria, os contos não trazem nada fora da realidade. É tudo plausível e assustador. Desde "a infância de um chefe" (o maior e último conto), até a agonia de um prisioneiro do regime fascista espanhol ("O muro"), passando pela mente de um sociopata em vias de ("Erostratro") até os pensamentos femininos em relacionamentos conturbados (em "O quarto" e "Intimidade").

Eu teria uma infinidade de citações a fazer, mas o dono do livro não é muito amigo de grifos. Entendo que uma anotação num livro distrai o leitor do seu próprio envolvimento e pensamento com a obra, mas desde que li as correspondências do livro 84 Charing Cross Road (que deu origem ao filme Nunca te vi, sempre te amei), passei a ver como uma marca fundamental de carinho pelo livro as anotações em suas páginas, principalmente se vierem de outros leitores e eu simplesmente saberei o que mais lhe interessa em cada página.

7 comentários:

  1. "(...)Sábios em vão
    Tentarão decifrar
    O eco de antigas palavras
    Fragmentos de cartas, poemas
    Mentiras, retratos
    Vestígios de estranha civilização

    Não se afobe, não
    Que nada é pra já
    Amores serão sempre amáveis
    Futuros amantes, quiçá
    Se amarão sem saber
    Com o amor que eu um dia
    Deixei pra você"

    sei lá. isso das anotações me lembrou essa música do Chico.

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  2. O último livro de contos que li foi Doze contos peregrinos do García Marques. Interessante o que vc escreveu sobre O Muro, vou procurar pelos sebos da vida. =}
    Eu li Iracema, mas sinceramente e infelizmente, literatura brasileira me dá sono.

    Gostei daqui.

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  3. Sério: até eu que gosto de literatura brasileira já penso em todo o sono do mundo quando ouço "Iracema".

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  4. Oi, Obrigado pela visita lá no blog. Volte sempre que quiser.
    Nome interessante esse, Hugberries, divertido e simples de pronunciar. Seria fácil pegar como uma gíria, poderíamos trocar pelo tradicional "abraços" no fim de uma carta ou mensagem. E nas ruas ou em qualquer lugar as pessoas dariam "hugberries" umas nas outras.
    P.S.: Prefiro Iracema ao O Guarani.

    Hugberries!

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. haha, você poderia ter anotado. mas as citações não fizeram falta no seu texto. que ótimo ele!

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