quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Haiti

Não quero que esse post soe oportunista ou sensacionalista.

Uma tragédia desabou sobre outra nesse início de ano. Quando os ânimos conseguem se acalmar aqui na região sudeste e na região sul, onde muitos morreram por causa das chuvas, acontece o terremoto numa ilha no Caribe. A essas alturas, as informações já nos alcançaram e sabemos de brasileiros mortos, de brasileiros vivos. Há muitas imagens de mortos, feridos e de escombros pela internet e pela mídia impressa (provavelmente na televisão também, mas não a assisto). Eu não aguento por muito tempo ler as manchetes dos jornais, atualizando-se automaticamente e informando números. Não aguento, também, reuniões de alta cúpula, medidas de emergência da ONU ou a manifestação de celebridades.

Descobri numa matéria de jornal online o blog dos pesquisadores da Unicamp que estão em Porto Príncipe e me maravilhei. Esse grupo foi para o Haiti fazer uma pesquisa sobre zona de conflito e pós-conflito no começo de janeiro. Pelo que li, são todos do curso de Antropologia. A visão deles é bastante crítica e seus relatos de antes do terremoto já eram desoladores.

O Haiti tem uma história muito bonita e conheço-a de passagem pelo século XVIII. Quando os franceses empunhavam em seu território la liberté, la igualité e la fraternité, a maioria escrava da colônia de Saint-Domingue estranhou. Começou, em 1791, dois anos após o início da Revolução Francesa, uma grande revolta de negros escravizados que culminou na independência do país.

O blog do qual falei traz respostas e relatos desagradáveis. A força de paz da ONU está no Haiti com uma porção de soldados brasileiros. O que essa força tarefa faz agora? O que ela tem feito nos últimos tempos?
"Quando questionado sobre o interesse militar brasileiro na ocupação haitiana, Coronel Bernardes não titubeou: o Haiti, sem dúvida, serve de laboratório (exatamente, laboratório) para os militares brasileiros conterem as rebeliões nas favelas cariocas."
[Citação do post "Haiti: estamos abandonados"].

Muitas passagens me deixaram desorientada, como a da indústria que emprega surdos-mudos. Não como uma tentativa de incorporar pessoas com deficiência, mas para aumentar a produtividade, com pessoas que têm menos chances de se distraírem durante o expediente. Além disso, a maior parte da produção vai para os Estados Unidos e a população local consome produtos importados.

Cá está o porquê da minha descrença em reuniões de alta cúpula, na manchete "Sarkozy propõe reunião com EUA e Brasil".

3 comentários:

  1. Entendo não haver saída, pois estamos em um Estado nacional, mas me irrita essa coisa de "16 brasileiros mortos", "perfil dos militares brasileiros mortos". Ora vá! Todos ali são seres humanos, brasileiros, argentinos, religiosos ou não! Nacionalismo cansa.

    O Haiti passou por uma das piores ditaduras da América - Papa Doc e "Baby" Doc - e é, até hoje, o Estado mais pobre do Caribe. Catástrofes naturais podem acontecer em qualquer lugar do planeta; mas é angustiante tentar enxergar as perspectivas de reconstrução de um país que, em 2 dias de doações mundiais, recebeu 1 terço do que arrecada durante o ano inteiro. O que quero destacar não é o bom ou ruim nível de doações - não me cabe julgar isso -, mas a extrema pobreza haitiana.

    Não quero ser demogógico;não tenho solução. Entristeço-me, apenas.

    ResponderExcluir
  2. Não podendo eu dizer que deviam ter se preparado para o terremoto, cabe-me desabafar sobre o que tem sido feito nesse e por esse país em época de catástrofes menos épicas.

    ResponderExcluir
  3. E o mais triste ainda é saber que, quando tudo isso se acalmar, o Haiti provavelmente vai voltar pro esquecimento...

    ResponderExcluir