27.10.14

em costas, de costas



Projeto de curadoria com fotos da amiga que não gosta de posar para a câmera.
(No Uruguai e em Trindade-RJ)

 









20.10.14

nunca deixamos de ser românticos

Era com goles de chá e petiscando biscoitos que discutíamos como o Romantismo nunca acabou. Já era quase madrugada, mas ali estávamos, falando sobre como a nossa estrutura de pensamento é insuportavelmente romântica e que isso nada tem a ver com amor. Naquela época, para ser bem sincera, amor era a última coisa que nos importava.

Ontem terminei de ler Jamais fomos modernos, de Bruno Latour, e rabisquei com sono em sua página final: "Jamais fomos modernos, nunca deixamos de ser românticos". Esse é um texto de análise política disfarçada de resenha de livro e vice-versa com apontamentos levemente pessoais. Em ocasiões diferentes em salas de aula os pensamentos de Latour apareceram e eu só pude perceber isso agora. Li sozinha essa obra e desconfio que entendi no fim das contas muito menos do que gostaria. Ainda assim, caí em um tipo de maravilhamento causado pela falsa ideia de que por coincidência cheguei a esse livro na época das eleições. A primeira publicação, em francês, dessa obra é de 1991. Nota-se, sobretudo no final, que a queda do muro de Berlim era uma pauta ainda. Enquanto as propagandas políticas na minha televisão digladiavam-se entre um "muda mais" e um "o Brasil quer mudar", eu transcrevia o seguinte trecho:
"Se existe algo que somos incapazes de fazer, podemos vê-lo agora, é uma revolução, seja na ciência, na técnica, em política ou filosofia. Mas ainda somos modernos quando interpretamos este fato como uma decepção, como se o arcaísmo tivesse invadido tudo, como se não existisse mais um depósito de lixo onde fosse possível empilhar o que foi recalcado."
As revoluções, ao longo do tempo, foram se tornando tão autoconscientes e tão desesperadas em romper com o passado que por vezes deixaram de se dar conta de que o passado continuava presente. A crença dos modernos em si mesmos parece ter tampado parte de suas visões para todo o resto.

Se jamais fomos modernos, como diz Latour, porque jamais os ocidentais deixaram de se diferenciar como julgaram dos outros povos, o Romantismo como matriz de pensamento emerge em qualquer conversa banal. A supremacia do indivíduo, a pessoa contra o mundo, contra a sociedade que o rodeia. Os românticos são só uma parcela da história da pretensa modernidade, mas provavelmente sua face mais visível no cotidiano. O amor a uma pátria ficcional, a admiração que nutrem por uma natureza transcendente que está dissociada do mundo dos humanos. Dizer-se "brasileiro com muito orgulho, com muito amor", colocar-se em uma disputa democrática como antagonista absoluto de alguém, imaginar que é melhor arriscar a vida de algumas comunidades indígenas (que são tratadas como "artefatos" de identidade nacional de um passado distante e não como agentes políticos em debate no nosso próprio tempo) em prol da modernização a qualquer preço ornam bem com o ser moderno. Que não somos.

No primeiro turno dessa eleição presidencial, me causava um certo incômodo que uma candidatada falasse de nova política e um candidato respondia sobre como vai mal a economia, e em tréplica era preciso mencionar programas sociais e outra procurava espaço para condenar a exploração e um último defendia o meio ambiente (tinha dois que eu sequer me arriscaria lembrar do que diziam sem sentir uma espécie de enojamento). A questão é que é nada disso existe em si e supor prioridades é ainda ter um pensamento que não conecta pontos. E pra quem pense que estou brincando de pós-modernista num barulho desses e que não me importa quem seja eleito, digo que a mim importa muito.
"Se explico que as revoluções tentam abolir o passado mas não podem fazê-lo, pareço ser um reacionário. Isto porque, para os modernos - assim como para seus inimigos antimodernos, assim como para seus falsos inimigos pós-modernos - a flecha do tempo não possui qualquer ambiguidade: podemos ir sempre em frente, mas então é preciso romper com o passado; podemos decidir voltar atrás, mas então precisamos romper com as vanguardas modernizadoras, as quais rompiam radicalmente com seu passado."


Dados do livro


Título: Jamais fomos modernos
Autor: Bruno Latour
Editora 34

15.10.14

duas dimensões da arte

A exposição da Mira Schendel na Pinacoteca (que fica por lá até dia 18) me levou a sensações que há muito tempo eu não experimentava. A primeira delas, a de ficar tranquila em uma sala com obras-de-arte sem filas gigantes à frente ou atrás. Fui à Pinacô apenas para ver as salas que expunham obras de Mira e me permiti - essa é a segunda das sensações - entregar-me à arte sem desconfiar dela. A terceira e mais profunda sensação foi me dar conta de que a pessoa que eu mais conheço nessa vida é Theon Spanudis. Theon (chamar pelo primeiro nome o seu objeto de estudo é algum tipo de sacrilégio na Academia, mas indica uma real intimidade com a personagem) foi um poeta e colecionador de arte que nasceu na Turquia em 1915 e morreu em São Paulo em 1986. Por muito tempo, estudei sua documentação pessoal. Na exposição, sábado, eu era capaz de, à distância, associar a ele certas obras de Mira e pensava "isso com certeza esteve em sua casa" ou "ele jamais aceitaria isto como arte". As legendas nas obras confirmavam minhas suspeitas. A pessoa que mais conheço no mundo por seus gostos e pensamentos morreu antes mesmo de eu nascer; a pessoa que eu mais conheço no mundo é aquela que já não pode mais me surpreender.



Por outro lado, no dia seguinte, fui ver a exposição Made by... no antigo Hospital Matarazzo e desconfiei de tudo e não entendi quase nada: das intenções, do hype, das selfies. Desconfiei da arte, estive rodeada por pessoas a cada breve passo e não consegui me entregar a nenhuma obra por inteiro.


(Já pra quem estranhou as fotos de celular, esta que vos fala chegou a esse momento da vida em que tem uma conta no instagram)

10.10.14

com o vento do leste

Estávamos informalmente conversando sobre filmes de princesas e Helena, assim como eu, comentou que não tinha um filme de princesa favorito na infância. Dos clássicos, ela tinha crescido assistindo a Robin Hood, enquanto eu era viciada em Mary Poppins (uma tendência protomarxista de infância, parece). Todos os dias antes de dormir, eu pedia para minha mãe colocar o filme de 1964 no VHS e dormia praticamente sempre na mesma cena (aquela em que Mary canta uma canção-de-ninar para as crianças não dormirem). Eu sabia de cor as piadas que Tio Albert contava flutuando no teto, e sabia até quando entraria o comercial da Globeleza, já que minha mãe gravou direto da televisão o filme.

Mary Poppins, por Giovana Medeiros

Por uma mágica do tipo entrar em desenhos na calçada, terminei três livros mês passado e um deles foi a edição da Cosac Naify de Mary Poppins, escrito por P. L. Travers. Ganhei de presente da minha mãe porque, realmente, era minha história favorita de infância e mesmo depois de ter visto o filme um mol de vezes o livro me surpreendeu. Começamos com o fato de que Jane e Michael tem dois irmãos gêmeos: Barbara e John. Quando cheguei ao nome dessa personagem, dei uma olhadinha pro lado, no metrô, esperando encontrar uma câmera escondida, porque não sabia que na minha história preferida havia uma xará minha.


Uma coisa curiosa da obra e que Sandra Vasconcelos destaca no posfácio do livro é como a Disney transformou a babá misteriosa e meio egocêntrica em uma fofa Julie Andrews. O que me chamou a atenção é que isso já aconteceu outra vez. Quando eu lia a série O diário da princesa, da Meg Cabot, na adolescência, temia a avó de Mia, uma rainha megera, com maquiagem carregada e que era capaz de saber quando a neta mentia. Na versão filmográfica da Disney, a avó é uma doce e rígida Julie Andrews, e é praticamente impossível não desejar ser herdeira do trono da Genóvia (no filme, o pai morre, enquanto que, no livro, ele fica infértil depois de uma doença nos testículos - sempre achei estranha essa preferência dos Estúdios pela morte do personagem). Ao contrário de Julie Andrews, Mary Poppins não é uma fofa. Mary Poppins apenas é Supercalifragilisticexpialidosa; praticamente perfeita em todos os sentidos.

3.10.14

a vida até parece uma festa



Agosto, o mês de celebrar leoninos e virginianos. 














♫ Titãs - Diversão