winona essencial

Ter terminado Stranger Things só me motivou a falar de uma das pessoas sobre as quais mais gosto de falar: Winona Ryder. Aprendi com ela que ninguém está muito bem e que ninguém é muito normal. Seja porque esse mundo foi feito mais para Gwyneths  do que para Winonas, ou porque os 30 são uma fase difícil para muitas mulheres, ou simplesmente porque ela se parece demais com seu personagem literário favorito (Holden Caulfield, de O apanhador no campo de centeio). Mas o mais importante é que em geral aprendi essas coisas vendo bons filmes com ela e com um certo silêncio que se criou em sua carreira. Aqui está minha seleção de ninguém-está-muito-bem-ninguém-é-muito-normal estrelando Winona Ryder.


Beetlejuice é o bom e velho Os fantasmas se divertem, em português. Na verdade, a tradução soa meio estranha, porque praticamente nenhum personagem se diverte em Beetlejuice na maior parte do tempo. O personagem de Winona Ryder é Lydia Deetz, uma adolescente "estranha e incomum", que consegue se comunicar com os fantasmas que habitam sua nova casa. É um filme daqueles tempos em que Tim Burton estava no seu auge e que tem coisas que se repetirão em outras obras depois, como o fato de os mortos serem mais simples e honestos que os vivos (alguém falou sobre A Noiva Cadáver aqui?).


Cher interpreta a mãe de Winona Ryder e Christina Ricci. É tanta gente esquisita junta constituindo família que eu não poderia ser mais feliz. Winona interpreta Charlotte, uma adolescente de 15 anos de idade que narra sua história nos anos 1960 e que tem uma moral de católica fervorosa, o que a coloca em tensão constante com a sua mãe solteira (Cher). Em português o filme ficou com o nome de Minha mãe é uma sereia e é o primeiro papel no cinema de Christina Ricci, anos antes de ser a Vandinha da Família Addams. Sua personagem passa a maior parte do tempo preocupada com o que realmente importa: apinéia na banheira.


Eu provavelmente sou muito condescendente com Winona e por isso coloquei o primeiro filme digirido por Ben Stiller aqui. Caindo na real apresenta um grupo de amigos recém-saídos da faculdade sem a menor ideia de qual é o passo seguinte na vida. É tipo o que a gente escuta de todos os amigos que temos, só que com pessoas que tinham 23 anos em 1994.


Assistir a Garota, Interrompida foi um dos ritos de passagem da adolescência. Questões que até então ficavam restritas às conversas com amigas de colégio, apareciam em várias personagens. É possivelmente também um filme de rito de passagem para a própria Winona, que faz o papel de Susanna Kaysen, uma jovem de 18 anos com tendências suicidas. Anos mais tarde descobri que não só Winona Ryder e Angelina Jolie compartilhavam o protagonismo no filme, como entre os papéis de apoio estava Elisabeth Moss, a Peggy de Mad Men. Apesar de ter feitos vários outros filmes depois desse, parece que só agora Winona vai voltando ao velho destaque. Sinceramente? Era o que eu mais sentia falta dos anos 1990.

we used to play outside when we were young


A janela do quarto é enorme e demanda uma bela cortina. Alguns aluguéis já foram pagos e nenhum tecido inibe a entrada devastadora da luz no ambiente. Descobri que comprando uma máscara para os olhos já resolvia grande parte do problema. Além disso, quando for sexta à noite de um feriado nacional e todas as torneiras de casa resolverem se rebelar e seus amigos afirmarem que chegam em meia hora, a única solução real é colocar tutoriais de uso das ferramentas hidráulicas coladas nas paredes do banheiro. A gente se vira como pode.
















pequeno inventário dos que ficaram

GRETA
Greta estava sentada a algumas mesas de distância no café da manhã mas se levantou para se sentar comigo. Disse que não gostava de fazer refeições sozinha, mas reparei que já tinha terminado sua comida. Foi seu jeito de disfarçar que queria sentar ali e conversar um pouco. Apresentou-se e eu disse que me chamava Bárbara. "Em alemão existe esse nome", disse ela. "Sim, em muitas línguas". Ela sorriu dizendo ser um nome global. Se nos conhecêssemos há pelo menos meia hora mais, eu teria dito que meu nome faz referência a todos os que não estiveram no centro do Império Romano. Seus antecessores, provavelmente. Ela elogiou meu cabelo e pediu para eu não cortá-lo; ainda não o cortei, Greta. Disse que aproveitava as férias para ir a Londres. Sentia-se mais livre na Inglaterra, ao contrário do que a faziam sentir os costumes germânicos. Lembrei-me da artista plástica que conheci em Berlim, que migrou do Reino Unido, porque sentia que ali no continente, na Alemanha mais especificamente, era mais fácil ser livre, longe dos costumes ingleses. A liberdade afinal são os outros. 


GERMAN
Paguei-lhe uma cerveja e passamos horas conversando. Tínhamos em comum lembranças de um mesmo lugar que já chamamos de casa. Ele me trazia os chiados da y-griega que eu insisto em emular. Eu levava histórias de um território que ele não via fazia muitos anos. Ele me disse de Alejandra Pizarnik, mais uma poeta suicida para minha coleção mental. (Ele não soube dessa coleção). Perguntou meu signo e constatou que piscinianos e aquarianos rendem mesmo grandes encontros. Apeguei-me a sua mística. Minutos antes de começarmos a conversar, eu vivenciava uma chuva de meteoros. 


MARIAS
Maruxa e Coralia morreram antes que eu nascesse e uma estátua das duas, coloridíssima, preenche o parque de la Alameda em Santiago de Compostela. Pelo que sei, saiam as irmãs Fandiño às duas da tarde, todos os dias, a caminhar pela cidade. O contraste das cores com o tempo nublado que encontrei ali era também nas décadas anteriores resistência à opacidade hostil da ditadura franquista na Espanha. Olho suas figuras animadas e olho também os transeuntes a se animar com suas imagens. Não sei se sabem, mas estão diante da representação de mulheres destruídas pela Guerra Civil, com irmãos mortos, familiares torturados, elas mesmas expostas nuas na juventude em praça pública. Não sei se sabem os que olham, e, se sabem, não sei por que sorriem.


MIGUEL
Miguel tinha cabelos grisalhos, a casa emprestada do irmão de um amigo, um telefonema da mãe naquela noite e o beijo mais macio que já beijei. Miguel me quis ainda na praça e eu não soube o que eu mesma queria, por isso segui até o momento em que me decidi. Eu queria ter ficado, mas ainda me abatia uma tristeza dos fatos recentes. Miguel devia saber que eu partiria como um argonauta e consigo imaginá-lo com o vinho e o queijo que deixamos à varanda rememorando em seu sotaque lusitano os versos que dizem "toda a gente que eu conheci e que fala comigo / nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida".

sobre a constante cosmológica

Na noite distante e na mente cansada
últimas memórias aparecem desnudas;
os erros abandonados à interpretação
e um último toque naquilo que era
o desejo irreparável de registro.
Dedos guardavam mensagens criptografadas
inventadas na sua pele desde nascido.
Decifrei cada frase desconexa em pintas,
sinais, manchas e nevos melanocíticos,
e contei-lhe sobre os léxicos, as semânticas,
estruturas verbais, o riso que me dava.

Liguei os pontos espalhados da epiderme
e formaram-se desenhos de constelações.
O universo, tão amplo e misterioso,
deitava-se ao meu lado, encostava-me
em si e movia-me naquilo que convecionou
chamar de ondas gravitacionais.
Pela janela, em noites claras,
nunca me ocorreu decidir se movimento
era aproximação ou era distenção.

Não sabia que havia destino derradeiro
- ninguém é capaz de dizer, na verdade,
se é finito ou infinito, e, se sendo algo,
é cíclico ou retílineo -
mas mantive em segredo a última leitura
dos símbolos às suas costas vistos
da altura do meu travesseiro
com olhos ainda meio cerrados
(por indecência fingi-me sonolenta
ou por incômodo da luz matinal?).
Diziam as borras castanhas que
ninguém jamais te amaria como eu.

para além do tubo

Que muitos de nós já não consomem televisão como um dia as pessoas consumiram não é exatamente uma novidade. A discussão é até mais ampla e passa por como consumimos produtos audiovisuais em geral. Streamings, transmissões online, torrents são formas de assistir a coisas que escapam do velho tubo. Só que no meio disso tudo, eu às vezes acho complicado achar coisas que eu realmente queira ver. Fiz então uma pequena lista de vídeos ótimos que consegui ver online, a maior parte por indicação de amigos.




Esse viver ninguém me tira é um documentário produzido por Caco Ciocler sobre Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa. Além de contar sobre o amor de Aracy e do escritor João Guimarães Rosa (que dedicou seu único romance a ela), o filme investiga a ajuda que a ex-funcionária do consulado brasileiro na Alemanha deu a judeus para fugir do nazismo. O meu carinho especial vem do uso do acervo pessoal de Aracy Guimarães Rosa que pertence atualmente ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP.



Eu lembrei muito desse filme que vi no centro cultural Awawa de Iruya, na Argentina, quando do desastre ambiental em Mariana. Río arriba é um documentário sobre questões importantes daquele território. A questão dos povos originários, a chegada das mineradoras e da transformação do solo pelo uso alterado da agricultura (que de subsistência torna-se commodities), até chegar a destruição causada pelo rio.





Matilde Campilho é talvez a poeta portuguesa mais conhecida hoje em dia. Ou talvez seja minha sensação de que ela está em muitos lugares ao mesmo tempo, porque alguns amigos meus vivem a falar de seus textos. Fevereiro é o poema que já me mandaram umas três vezes, em contextos diferentes. E essa junção de poema com imagens diversas é mesmo bem bonita. Como bônus, ainda recebi de Vinícius num domingo desses, o link do programa de rádio que Matilde tem em Portugal e que me fez confirmar a sensação de que além-mar eles amam nossas bossas.

"Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor."


Eu realmente acho que estudei anos de História da Arte para chegar neste momento final em que 3'28" de um videoclipe de uma dupla espanhola chamada Las Bistecs resume do Renascimento a Dona Cecília a arte ocidental. Esses tempos elas lançaram outro clipe, também ótimo, chamado Señoras bien. E no Soundcloud dá pra ouvir outras preciosidades tipo "tumblr o blog?".




Watch this on The Scene.

Stella McCartney entrevistando a Grimes para a Teen Vogue na verdade é uma desculpa para eu incluir essa cantora por aqui. Eu acho que fiquei fascinada com Claire Elise Boucher quando percebi que ela podia descolorir e tingir o cabelo de um jeito ainda mais estranho do que eu tinha feito. Logo depois ela lançou um novo álbum, Art Angels. Vale a pena ver pelo menos um (ou inclusive todos) dos clipes dessa nova safra: California, Kill V. Maim e Flesh Without Blood/Life in Vivid Dream


Na época do colégio, eu costumava frequentar o Porta Curtas, naquela faixa etária em que é comum a pessoa assistir a Ilha das Flores do Jorge Furtado (não à toa, o vídeo mais acessado no site). Mas há poucas semanas descobri um novo site de conteúdos audiovisuais, o Afroflix, para produções que contam com pelo menos uma pessoa negra na equipe técnica ou artística. Outro lançamento dos últimos tempos foi uma newsletter minha com Seane e Lucas sobre nossas vidas e as séries que acompanhamos. Já estamos no terceiro capítulo e, pra se increver, é só preencher com o e-mail e receber o No episódio anterior na caixa de entrada.