2.3.15

está morto, sossegado #3


Numa mesma semana, duas amigas me procuraram para falar sobre morte. Por dois motivos bastante diferentes, as duas se depararam com esse fenômeno absurdo (e natural, mas nem por isso menos absurdo) que é lidar com a morte do outro. As duas me procuraram _elas não sabiam_ na mesma semana em que completava um ano a morte do meu avô. Todo fim é evitável na linguagem. Porque se ele não tivesse subido e não tivesse caído, não teria ido para o hospital, não seriam cem dias, não morreria. Mas se ele não tivesse, não seria ele. Esses tempos verbais que permitem mudar o passado não ajudam nos momentos de dor.

Quando eu fui embora, havia um amor profundo. E todos viam, e pediam para se responsabilizar de alguma maneira pelos momentos seguintes de felicidade. E pediam que tomassem conta de mim, e diziam que tomariam conta dele. Quando eu fui embora, levei uma mala resolvida em sucintez, uma carta carregada de prepotência e um abraço que pesava uma vida. Quando eu fui embora, as conversas _eu soube_ giraram ao redor de quem eu era e do que eu fiz. Usavam os verbos no passado. Como se eu tivesse morrido. Naquele momento, a linguagem criou o fato.


22.2.15

la esperanza adelante y los recuerdos detrás



Hoje ela embarca para a Alemanha. O que eu tinha para dizer vai em carta, num envelope lacrado, com o nome Dossiê A gente cria os amigos para o mundo. Poucas coisas tem sido mais certas do que isso nos últimos tempos. Como diz a tradução que Vivian fez de Blackbird: "Passarim preto cantando na calada da noite pega essas asa quebrada e aprende a voar/Toda sua vida cê só tava esperando por esse momento pra raiar". De antemão, pra quem ainda não viu esses vídeos, peço desculpas pela minha inabilidade de entrar no ritmo das músicas e pelo microfone que fez os agudos estourarem lindamente. O que vale, no fundo, é a buena onda da situação. E los recuerdos que ficam.






 



18.2.15

o oposto do silêncio


Pussy Riot // Ilú Obá de Min


Blackbird singing in the dead of night // Lady Stardust


9.2.15

respirar o amor, aspirando liberdade


O que eu chamei de comemoração de aniversário alguns chamariam de teste de resistência. Pessoas acordaram num sábado antes das 8 horas da manhã dispostas a andar 9,6km com um céu nublado para marcar minha entrada neste novo quarto de século. Se é verdade que o amor é como o vidro (líquido), essas fotos aparecem como ressalvas a serem feitas. (Mas somos pessoas do nosso próprio tempo, e buscamos aliar harmonicamente nossos sentimentos e a busca pela foto de perfil perfeita)



















♫ Daniela Mercury - Nobre vagabundo

5.2.15

está morto, sossegado #2


Existe algo de muito triste em nós três. Mas eu não consigo me aprofundar nos pensamentos de uma ou nos sentimentos da outra. A gente simplesmente sabe, e compartilha um olhar meio vago. Eu nunca enxerguei o que cada uma de nós tem da outra. Talvez uma docilidade meio arredia, um importar-se descompromissado. Talvez até uma bondade. E a busca por determinados esconderijos.

Luma ia ao portão e, às vezes, chorava sofrendo _quem sabe?_ pela partida do Feroz. Ela que já não dormia quando ele latia em dores, e que latia com ele em uma sinfonia de desespero que enchia a casa. Eu suspeito que minha avó ainda chore, vez ou outra, pela ausência do meu avô. Desde aquelas noites em que não dormia, pensando nas próximas visitas ao hospital, nas orações que o salvariam, na urgência de que ele voltasse a respirar. Aquelas cem noites mal dormidas. Eu, sozinha, nunca chorei pela perda que me coube (além das outras duas). Me pergunto se a natureza da perda era diferente ou se a nossa é que é assim tão distinta.