para além do tubo

Que muitos de nós já não consomem televisão como um dia as pessoas consumiram não é exatamente uma novidade. A discussão é até mais ampla e passa por como consumimos produtos audiovisuais em geral. Streamings, transmissões online, torrents são formas de assistir a coisas que escapam do velho tubo. Só que no meio disso tudo, eu às vezes acho complicado achar coisas que eu realmente queira ver. Fiz então uma pequena lista de vídeos ótimos que consegui ver online, a maior parte por indicação de amigos.




Esse viver ninguém me tira é um documentário produzido por Caco Ciocler sobre Aracy Moebius de Carvalho Guimarães Rosa. Além de contar sobre o amor de Aracy e do escritor João Guimarães Rosa (que dedicou seu único romance a ela), o filme investiga a ajuda que a ex-funcionária do consulado brasileiro na Alemanha deu a judeus para fugir do nazismo. O meu carinho especial vem do uso do acervo pessoal de Aracy Guimarães Rosa que pertence atualmente ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP.



Eu lembrei muito desse filme que vi no centro cultural Awawa de Iruya, na Argentina, quando do desastre ambiental em Mariana. Río arriba é um documentário sobre questões importantes daquele território. A questão dos povos originários, a chegada das mineradoras e da transformação do solo pelo uso alterado da agricultura (que de subsistência torna-se commodities), até chegar a destruição causada pelo rio.





Matilde Campilho é talvez a poeta portuguesa mais conhecida hoje em dia. Ou talvez seja minha sensação de que ela está em muitos lugares ao mesmo tempo, porque alguns amigos meus vivem a falar de seus textos. Fevereiro é o poema que já me mandaram umas três vezes, em contextos diferentes. E essa junção de poema com imagens diversas é mesmo bem bonita. Como bônus, ainda recebi de Vinícius num domingo desses, o link do programa de rádio que Matilde tem em Portugal e que me fez confirmar a sensação de que além-mar eles amam nossas bossas.

"Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor."


Eu realmente acho que estudei anos de História da Arte para chegar neste momento final em que 3'28" de um videoclipe de uma dupla espanhola chamada Las Bistecs resume do Renascimento a Dona Cecília a arte ocidental. Esses tempos elas lançaram outro clipe, também ótimo, chamado Señoras bien. E no Soundcloud dá pra ouvir outras preciosidades tipo "tumblr o blog?".




Watch this on The Scene.

Stella McCartney entrevistando a Grimes para a Teen Vogue na verdade é uma desculpa para eu incluir essa cantora por aqui. Eu acho que fiquei fascinada com Claire Elise Boucher quando percebi que ela podia descolorir e tingir o cabelo de um jeito ainda mais estranho do que eu tinha feito. Logo depois ela lançou um novo álbum, Art Angels. Vale a pena ver pelo menos um (ou inclusive todos) dos clipes dessa nova safra: California, Kill V. Maim e Flesh Without Blood/Life in Vivid Dream


Na época do colégio, eu costumava frequentar o Porta Curtas, naquela faixa etária em que é comum a pessoa assistir a Ilha das Flores do Jorge Furtado (não à toa, o vídeo mais acessado no site). Mas há poucas semanas descobri um novo site de conteúdos audiovisuais, o Afroflix, para produções que contam com pelo menos uma pessoa negra na equipe técnica ou artística. Outro lançamento dos últimos tempos foi uma newsletter minha com Seane e Lucas sobre nossas vidas e as séries que acompanhamos. Já estamos no terceiro capítulo e, pra se increver, é só preencher com o e-mail e receber o No episódio anterior na caixa de entrada.

velando a alegria do mundo








 






sem título, 03

She was not aware of her weakness
because she spent so much time
observing little ants walking by.
Their little feet, and big strength
their unheard conversations,
the ability of touching smells
and changing worlds around them.
Sometimes she would eat one or two
producing chaos with her hand
to understand if their qualities
could casually achieve her.

She was not sure about the meaning
of impossible as an usual word
because she did not know to desire.
She was only meant to see bird nests
being calmly made in the backyard
and to notice a pretty and strange
gratitude on their flights.

She could not know she was mortal
and was condemned to live as a soul
- a single soul in the rough space -
accompanied by death's wanders.
People turned into stones,
disappearing organically as plants,
were ready to live somewhere
embraced by a harmful sound of silence
in a way she always dreamed about.

nós, ciborgues

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♫ Pedro Aznar - A primera vista

um monomito para chamar de meu

Já era tarde e eu olhava para o teto do quarto escuro. Mais uma noite em que eu não conseguia dormir porque dentro de mim uma série de sensações me impediam de descansar. O corpo visivelmente cansado e a mente que não aguentava mais tanta emoção. As memórias pareciam percorrer minha extensão em fluidos e as horas passavam. Eu precisava dormir mas não conseguia. A vida parecia boa demais para eu não ficar aflita de vontade de congelá-la ali. Era 26 de janeiro, meu aniversário, e mais uma vez eu amei tanto e fui tão amada que nada me consolava.

Um mês e pouco depois, abri o e-mail e o contrato do aluguel estava lá. Eu senti uma alegria intensa e uma tranquilidade estranha. Eu não imaginei o futuro. Pensei em três anos antes. O dia em que eu abri o e-mail e o contrato de aluguel estava lá fazia exatos três anos que eu tinha embarcado para a Argentina para um intercâmbio de quatro meses. A chegada do contrato de aluguel deveria ser a celebração de algo novo, mas foi, pra mim, o fim de um ciclo de três anos.

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Eu olho para o vazio e tento criar uma explicação para o que é uma invenção abstrata no meu coração. De onde vem essa alegria, por que tamanha tranquilidade? Três anos atrás eu quis estar onde estou hoje, mas eu não podia, e eu não sabia que eu não podia. Três anos atrás eu via o tempo acontecendo em linha reta, mas sem sentido, e agora nesse vazio para onde olho enxergo uma espiral por onde correm os eventos. Eu até acho graça, porque nada é mais antigo em termos de narrativa do que a jornada do herói, e esses três anos cabem tão bonitinhos na geometria de Joseph Campbell que me permito empacotar minhas experiências e acomodar esse pacote no centro desse círculo imaginário. Só que é isso: quando o herói conclui sua jornada, ele não volta para o mesmo lugar. Estamos num mundo tridimensional, afinal de contas.

Eu desejei cuidar e ser cuidada e sofri porque me confundia ao estabelecer quem eram os agentes dessas ações. Eu podia ser forte, mas ninguém parecia ter motivos para acreditar nisso. E se parece que essa transformação eu pude fazer só, é ilusão. O herói não avança sem mentores que o conduzam pelo mundo mágico.

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