4.2.16

o corpo do homem me espera

As esteiras me fazem caminhar sem esforço
e as estrelas me colocam pequena no espaço.
O corpo é o território percorrido antes das
lágrimas não choradas no velho aeroporto.
Ensaio chorar em um canto novo do saguão
mas tristeza não explica a forçada despedida.
Sei que o corpo do homem me espera.

Olho para o lado e, de novo, tudo é novo.
Me pergunto por que vou embora outra vez
e ninguém me responde em parte alguma.
Observando o anel que rodopia no chão,
suprimo meu ar por alguns momentos e
me dou conta de tudo que está suspenso.
Se longe estou e se quero estar - e quero,
lembro que o corpo do homem me espera.

No escuro silêncio do primeiro barco,
penso que dói o amor e dói não amar,
porque a dor não está na coisa amada
ou na ausência de objeto a ser adorado.
A dor está em mim como fluído carnal
e se me enfermo quando amo - e me enfermo,
custam quilômetros para sanar-me.
Ali, o corpo do homem me espera.

A casa vazia, recém desocupada,
e o estranho silêncio na cidade cheia
trazem a memória de danças perfeitas
quando nada era mais que potência.
As paredes estão prontas para ruir
e o chão trepida longamente.
Escapo atordoada pela janela
porque o corpo do homem me espera.

Sento-me na rodoviária de província
e desconhecidos riem comigo,
me convidam para uma linda peña,
e se mexem em franco êxtase.
Penso em ir e esquecer de avisar
mas estou presa por meu próprio peso.
Movimento os pés mas me finco,
hoje o corpo do homem me espera.

28.1.16

a retrospectiva fora de hora

fotos do instagram do __luco
A gente pode fingir que não é anacrônico fazer qualquer retrospectiva do ano que acabou há quase um mês, usando como desculpa que ainda não chegou o Carnaval ou que na verdade isso é apenas uma atualização do LinkedIn que nunca tive. Em 2015, estive em tantas piras que é até bom olhar com calma pro que passou. Naquele sutil desejo de que um dia a calma seja a regra e a pira seja a exceção. Fato é que, por mais estranhas que as coisas fiquem, é massa ter algumas coisas pra compartilhar de dias maneiros e de colaborações supimpas (se vocês tiverem outros sinônimos do adjetivo "legal" para me oferecer, minha coleção agradece). Qualquer pessoa que me conheça há mais de cinco dias sabe que sou 99% megalomaníaca e aqueles 10% que acha um porcento muito pouco. Há quem diga que ainda assim eu não sou uma pessoa desprezível, e aqui estão alguns textos e fotos que eu tive a chance de produzir no ano passado.


Capitolina


Pra Capitolina, a maior parte das minhas colaborações tem sido feitas nas seções semanais. Em 2015, criamos lá a editoria de Esportes (eu gostaria que nesta parte do texto entrasse uma bandinha de fanfarra para dar o tom), e continuei em Estudo, Vestibular e Profissões. Além disso, pedi para escrever um texto na seção de Artes e as meninas me deixaram falar sobre como mulheres artistas não são sofredoras _ ou pelo menos não o tempo todo.





Chez Noelle

A Stephanie, do Chez Noelle, lançou um batom. Além da cor ornar muito com o tom de rosa do meu cabelo, ainda tive a chance de fazer as fotos de divulgação dele.



/ like a rock

Junta umas pessoas vestidas como se estivessem nos anos 90, dá uma volta com elas, escuta The Queen is dead, espera o Lucas fazer as intervenções gráficas e: temos! O editorial de repente 90s no blog like a rock.

13.1.16

os caminhos de santiagos









Santiago de Compostela, agosto de 2015
Santiago do Chile, dezembro de 2015

2.1.16

o ano em que quis não ser

As coisas acontecem. Simplesmente se passam, uma seguida à outra, simultaneamente ou não. E a gente faz retrospectiva sobre o ano que passou pelo mesmo motivo que a gente estuda História na universidade: pra tentar dar um sentido ao excesso de acontecimentos que parecem absolutamente aleatórios. 2015 foi desses. Bem aleatórios. O esforço em dar um sentido a isso é tremendo! Mas, sem ele, tudo estará jogado, como planetas e corpos celestes variados em um universo em que nada se prende a nada (e se termina em um buraco negro qualquer).

Em 2015 eu quis não ser. Eu quis não ser relevante, quis não me crer. Em 2015, me dei conta de que toda representação normatiza coisas e que a bem da verdade tenho vontade nenhuma de normatizar o que quer que seja. Eu quis que meu corpo fosse modelo de nada e meus pensamentos fossem referências nenhuma.
"'All I know is I'm losing my mind,' Franny said. 'I'm just sick of ego, ego, ego. My own and everybody else's. I'm sick of everybody that wants to get somewhere, do something distinguished and all, be somebody interesting. It's disgusting - it is, it is. I don't care what anybody says.'"
Em 2015 precisei entender muitas coisas, mas, ao buscar entendê-las, descobri que não me alcança sabe-las. Em 2015 eu quis ser salvadora de mundo nenhum. Eu perdi nesse ano coisas preciosas. Perdi gente, perdi crenças, perdi alguns medos e poucas vergonhas. Eu quis, esse ano, não querer e percebi que, não sabendo amar, eu quis ser o amor de ninguém.
"Ela colhia margaridas / quando eu passei. / As margaridas eram / os corações de seus namorados, / que depois se transformavam em ostras / e ela engolia em grupos de dez."
Eu quis ser nada, mas, sabendo da impossibilidade de desexistir, em 2015 eu acabei por assumir o que podia garantir sobre minha própria vida. Decidi que, se não me cabe desviar das circunstâncias que me atropelam, posso ao menos tentar colocá-las em uma perspectiva que as tornem menos furiosas sobre mim. Em 2015 decidi acreditar na minha responsabilidade e me permiti dar passos mais largos. Foi nesse mesmo ano que eu decidi que cabia a mim informar-me o quanto eu suportaria o que me fazia sofrer. Em 2015 me afastei do que me fazia mal, e não me aproximei de coisa alguma. Andei por caminhos diversos - isso literalmente - e me surpreendi pensando que é capaz que tenha chegado onde queria: a um lugar que não tenho nem ideia de qual seja.
"Alma que siempre disconforme de ella, / Como los vientos vaga, corre y gira; / Alma que sangra y sin cesar delira / Por ser el buque en marcha de la estrella." 
[Trechos: Franny and Zooey, J. D. Salinger // Registro civil, Carlos Drummond de Andrade // Alma desnuda, Alfonsina Storni]