quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

a melhor parte de mim


Todo dia 26 de janeiro é aquilo. Eu vou dormir no dia 25 meio tensa pensando em como o tempo é implacável e passa levando a todos nós. Faço algum tipo de balanço mental, me pergunto se era aqui mesmo que eu queria estar na minha vida e os resultados variam consideravelmente de ano para ano. Ao vinte-e-sete anos, querendo ou não, estou em algum lugar da vida e com algumas ressalvas não há o que reclamar.

Eu tenho um receio de que ninguém apareça à comemoração, penso que todos viajam no verão (na época da escola sempre parecia que sim, e só eu estava em São Paulo perto da volta às aulas), que ninguém aguenta mais sentar no chão pra fazer piquenique. Mas então as pessoas aparecem e eu tenho algum tipo de confirmação mental de que a melhor parte de mim vive fora de mim e são esse amigos que se fazem presentes (ainda que não estejam no dia). Se é mesmo implacável o tempo, que sorte que me leve com essas pessoas.






















As fotos da festa ficaram ótimas e foram tiradas pelo Lucas

2012 || 2013 || 2014 || 2015 || 2016

E a música que Vinícius me mandou de presente

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

seis meses incompletos


Quando eu pego a câmera analógica para fotografar algum momento com meus amigos, sempre aparece alguém para informar que aquelas fotos só surgirão reveladas seis meses depois. Se você é meu amigo, com certeza já ouviu isso e, se não ouviu, foi porque você mesmo quem disse. Fato é que meus amigos estão quase sempre certos e aqui estão as fotos que tirei em agosto, cinco meses atrás, portanto, nas minhas férias. Eu não queria ir para nenhum lugar longe, caro ou ficar muitos dias fora de São Paulo naquele mês e, por isso, decidi conhecer São Carlos, no interior do estado. Porque o que eu queria mesmo era pegar carona com desconhecidos, chegar numa festa de república universitária (dormir no sofá logo em seguida, evidentemente), e passar um tempo tranquilo com pessoas queridas. A minha sorte é que Gabi, Mari e Ane por coincidência habitam o mesmo município e isso fez a minha viagem despretensiosa de férias ser mais ou menos isso que está revelado nessas fotografias.







quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

a atual vida na internet

Interessar-me sobre internet sempre foi, de algum modo, interessar-me sobre mim mesma e os lugares que frequento. Há tempos digo isso por aqui, mas não faz muito que isso se tornou central na minha vida. De ser como que forçada a pensar sobre tudo isso que está aqui; antes era só um hobby, um interesse descompromissado. Desde então, algumas coisas mudaram. Eu já não coloco mais vaporwave para tocar quando abro aplicativos de paquera (eu, na verdade, nem tenho mais aberto aplicativos de paquera) e desenvolvo novas obsessões (o que talvez fale muito sobre meu fracasso nos aplicativos de paquera). Esse post é para dividir com os conterrâneos internautas (sempre intrigante como essa palavra algum dia disse respeito a um grupo restrito e hoje pode dar conta de um sem número de pessoas no mundo) coisas e caminhos que tem me conquistado nos protocolos http da vida.

Mais ou menos na mesma época em que internet virou trabalho para mim, eu comecei um mestrado em Sociologia da Cultura. Não à toa a última mensagem que recebi da minha avó semana passada no WhatsApp dizia algo como "você só estuda, hein?". Acontece que eu precisava dar conta das leituras de duas disciplinas e de um ou outro artigo por aí. Foi quando num lanche da tarde Rafael me apresentou ao RefME e fez-se luz. Você baixa o aplicativo ou cria uma conta na versão web e investiga um pouco qual é a melhor forma para se organizar e depois você guarda suas citações ali e depois você chora no fim do semestre porque aquele livro ótimo que pegou na biblioteca está emprestado para outra pessoa mas você foi esperto o bastante para salvar tuas partes favoritas num banco de dados qualquer.


Como até eu tenho limites espaço-temporais e minha força de trabalho não é autorrenovável, saí da Capitolina nesses últimos tempos. Todo mundo sabe que eu fui muito feliz participando desse projeto, que trouxe um grau de satisfação pessoal e coletiva que até então eu nunca tinha sentido. Entre 2014 e 2016, eu pude ser muito para fora ali e ao mesmo tempo enxergar um pra dentro que nem sabia bem que existia. Não direi palavras de gratidão pois acho cafona, mas que sou grata pelas pessoas que surgiram dali e que surgiram sobretudo por conta da vida virtual que levamos é inegável. O passo seguinte é contar que talvez tenha sido uma escolha para mim, nesse momento, ser uma pessoa que lê mais do que escreve. Que tem mais o que aprender do que ensinar. Nesse momento. Não sei até quando. Mas nesse momento. E, aqui, entram as publicações virtuais que tem ganhado minha atenção:
  • Eye on Design: porque às vezes eu só quero ver umas imagens bonitas e às vezes quero ver imagem bonita e também pensar sobre forma, uso, consumo.
Por fim, eu, na minha vibe de me analisar com frequência, percebi que sou a louca das linguagens. Não que eu mande bem, mas é uma parada que me interessa quase que em si. Minha pesquisa é em artes visuais (linguagem), tenho estado muito ligada ao cinema (linguagem), tô tentando descobrir se dá pra aprender alemão ou francês sozinha (linguagens e ideias estúpidas que tenho), e quando tô muito cansada de textos, tento entender códigos de programação (linguagem). Outro dia ainda pensei que eu devia aprender algo de música (linguagem) pois sou analfabeta nisso, mas me dei um tapa na cara e acordei para a realidade. No fundo, muito nos surpreende que minhas olheiras não ocupam ainda cem porcento do meu rosto.


gif feito no Piskel

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

a girl's best friend, II


Não sei que pessoa meus cachorros pensavam que eu era, e eles jamais entenderiam se eu dissesse que ao invés de ser quem eles supunham que eu fosse, eu preferia mesmo era ser tão boa para os outros como eles sempre foram comigo. No dia em que a Luma morreu, eu senti mais falta dela quando lembrei de todas as vezes em que eu chorava e ela ficava por perto, me distraindo da minha dor. Naquele dia, não teria mais isso. Eu pensei nela o dia inteiro e, para além da implacabilidade do tempo como me ensinou a morte do Feroz, eu me lembrava de tudo o que aqueles dois seres me ensinaram.


A Luma tinha uma alegria constante que eu não entendia bem de onde vinha. Durante minha época de colégio, eu sentia a alegria dela aos sábados às 7h, porque era a hora em que ela pulava na minha barriga, supondo que eu estava atrasada para a aula. Eu dizer "Luma, é sábado" não adiantava muito, e ela só sossegava com uns cafunés atrás da orelha. Foram só nos últimos anos que passou a se isolar quando via muita gente por perto e não tinha muito ânimo com os cães mais novos que apareciam em casa. Ela parecia ver bondade em toda parte e, mesmo assim, criava estratégias para não se prejudicar. Era notável que enchia a boca de comida, e ia para um canto, deixando a tigela livre mas sem perder os pedaços de carne que eram seus por direito.


Ela parecia meio tonta quando tentava cuidar de passarinho morto enquanto eu e minha mãe gritávamos para que ela o largasse. Ela também não podia ser solta da coleira que perigava ser atropelada porque se animava e saía correndo sem muito rumo. Numa dessas, ela fugiu um dia de casa, quando minha mãe abriu o portão. Desesperada, passei o dia andando pelo bairro porque sentia que ela não saberia se virar sozinha. No dia seguinte, ela apareceu dentro de casa imunda como se tivesse dormido debaixo de um carro, mas com a cara alegre de sempre, como se fosse um dia normal. Essa história permanecerá um mistério, bem como o porquê de ela enterrar pães franceses no quintal. Mas, vejam bem, um dia voltei da escola e ela tinha, sabe-se lá como, dado à luz cinco filhotes e limpado-os em algum tempo recorde. Eu nunca entendi muito bem como uma cachorra que nunca aprendeu a tomar água sem engasgar (sério, ela engasgava toda vez) tinha total capacidade de fazer o próprio parto sozinha.


Eu lembro de contar para minha mãe sobre a minha menarca anunciando que no mesmo dia a Luma tinha entrado no cio, porque, afinal, eu sempre gostei de usá-la de metáfora para minhas experiências. E eu lembro como foram difíceis os dias em que Marie, a gata da vizinha, inventou que gostava mesmo era de dormir na minha cama. Todas as noites, eu me encolhia para que uma ficasse nas minhas pernas e a outra perto da minha barriga. E então não me arriscava a me mexer por horas para evitar qualquer conflito (a Luma nunca entendeu qual era a daquele bicho ali e, sinceramente, eu também não).


É estranho pensar que alguém que esteve comigo nos últimos 17 anos já não está mais. Mas tem uma beleza em saber que ela me fez tão bem mesmo sem poder imaginar.