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15.7.14

o amor da flor de cacto


Sugeri em casa que fizéssemos uma horta no quintal. Não apenas acatou-se a ideia como meu tio tomou a dianteira e descolou vários vasos e muita terra. Guilherme me deu umas sementes, a muda de batata-doce e a bertalha roxa que ele me apresentou já tem folhas bem vistosas.




Mas a novidade mais maravilhosa vinda do quintal é que, depois de anos, meu cacto resolveu florir essa semana. Quando chegou em casa, a planta não media mais do que 30 cm. Há pouco tempo, precisei da ajuda da minha avó para conseguir transportá-lo para um vaso maior, furando nossas mãos em diversos pontos (pulemos a parte de comparações óbvias envolvendo machucados e boas intenções). Nesse momento, sem que seja um desafio verdadeiramente difícil, o cacto já alcança minha altura.


♫ Secos & Molhados - O patrão nosso de cada dia

29.6.14

ainda no tempo regulamentar

Chegamos a uma dimensão alternativa do universo em que minhas amigas me chamam pra ir pro bar ver jogo e meus amigos perguntam se quero trocar figurinhas da Copa (não, não coleciono figurinhas desde o álbum de Harry Potter completo em 2004). Eu sempre fui muito do futebol e a única vez que fui parar na sala da direção no colégio foi por ter pedido para jogar futebol com os meninos ao invés de fazer relaxamento com as meninas. Mas, em geral, meus amigos não me acompanhavam nesses rolês e a maior parte das vezes que fui ao estádio foi com meus primos.

Acho que, a essa altura, já sabemos que não é por gostar ou não de futebol que alguém é melhor ou pior em termos de entendimento do mundo. Eu mesma vivo me perguntando como alguém pode ser racista ou xenófobo e dizer que acompanha com prazer jogos de futebol. Porque, por exemplo histórico, a primeira seleção do mundo a admitir jogadores negros em seu elenco foi também a primeira campeã mundial (o Uruguai). E, por exemplo contemporâneo, grande parte das melhores seleções do mundo tem jogadores  - ou cujos pais ou avós - que não nasceram no território que defendem. Portanto, pessoas preconceituosas já são burrinhas; gostando de futebol, só posso achar que não estão entendendo nada.

Aproveitando que não sei até quando dura a nossa presença nessa dimensão alternativa do universo, aqui estão alguns textos (e um joguinho!) sobre o assunto futebol que eu li (ou escrevi, HEHE) nos últimos tempos.



O Rodrigo Vessoni do Lance! está acompanhando a seleção argentina na Copa do Mundo. Além de seguir cada passo da equipe de Messi, ele escreveu uma série jornalística chamada Lado obscuro da Copa em que aborda assuntos controversos envolvendo o esporte. Um texto sobre mensagens de ideologia nazista nos estádios, outro sobre a caça aos torcedores ingleses por organizadas brasileiras e o último (por enquanto) sobre torcidas da América e da Europa estreitando relações no Mundial.


Seis escritores escreveram sobre as formas de jogar de seus países para o The New Yor Times. A matéria, traduzida por "Como nós jogamos o jogo", é bastante interessante para ligar as seleções e suas histórias nacionais. José Miguel Wisnik escreve sobre o Brasil, com a idéia de que o futebol bonito mora aqui; a seleção inglesa tem como porta-voz David Winner com o subtítulo "Um futebol imperial, profundamente confuso"; a Itália fica com um "Nunca chato, sempre bonito", escrito por Beppe Severgnini; o que quer que funcione é a análise de Andrei S. Markovits para a Alemanha; Arhur van den Boogaard trata do apego holandês ao gênio do passado, Johan Cruyff; por fim, Luis Garicano arrisca na análise de que finalmente a seleção espanhola tornou-se uma seleção nacional. Acho que mesmo com 50% das equipes tendo parado na fase de grupos, é interessante a perspectiva de análise de cada um dos autores. Só que exige fôlego - porque é uma matéria grande - e saber inglês.


Sou dessas torcedoras que vira pro lado e dorme quando começam as estatísticas sem sentido que pululam antes, durante e depois das partidas. Mas o Google criou uma página maravilhosa com as pesquisas que o buscador mais registra nos assuntos relacionados à Copa do Mundo ao redor do planeta. Fica muito no campo das curiosidades mas tem seu valor tentar entender o que as pessoas pensam ou pelo que se interessam nesse evento.


Pouquinho antes da abertura da Copa, subiu na Capitolina um texto que eu escrevi sobre a história do futebol feminino no Brasil. Muita coisa ficou de fora, mas foi bem bacana pesquisar sobre o assunto e descobrir que por muito tempo mulheres foram proibidas de jogar futebol porque se pensava que era um esporte que ia contra sua feminilidade. Isso não só aqui, nem só no futebol. Talvez o fato de a melhor jogadora do mundo ser brasileira aliviasse um pouco o difícil cenário da modalidade no país. Mas o caso é tão excepcional que talvez seja melhor olhar por outro lado, pelo lado de todas que já tiveram que ouvir que não tinham que jogar bola porque isso não era coisa de menina (e que ocasionalmente acabaram na sala da direção da escola por isso).


Pra terminar o post de um jeito divertido, um jogo do The New York Times em que o objetivo é adivinhar onde estava a bola em cada uma das jogadas. São, até agora, cinco rounds! Aqui o , o , o, e .

7.6.14

o casaco de marx e a saia de dodora

C. me contava de uma camiseta que comprou por alguns oitenta dinheiros. Falava meio constrangido da compra, enquanto se justificava sobre o porquê ter pago tanto em uma peça de roupa. Eu disse a ele que se tranquilizasse com o assunto (devo ter dito "ih, de boa") porque estava muito impactada com um livro sobre mercadorias que tinha acabado de ler. Na introdução de A vida social das coisas, Arjun Appadurai se pergunta como damos valor às coisas e como elas circulam no mundo e em diferentes sociedades (ou em diferentes tempos, já que para a sociedade ocidental pessoas já puderam ser coisas - escravas - sem que isso fosse considerado imoral ou criminoso como hoje em dia). Com esse papo, ele me emprestou um outro livro sobre o mesmo assunto - mas mais poético e menos teórico, chamado O casaco de Marx.


O autor de O casaco de Marx faz o mesmo exercício que o tal Appadurai: para analisar a sociedade que o interessa, tira o foco da produção e coloca no consumo, nos usos das mercadorias. Appadurai faz isso no genérico (o que para mim, é excelente, já que minhas pesquisas são sobre mercado de arte); Peter Stallybrass escolhe falar sobre roupas e sobre sua relação pessoal com elas e sobre as relações sociais que começam com relações pessoais com as roupas. É sensacional. O livro tem esse nome porque, ao invés de falar como funciona o modo-de-produção capitalista, o autor conta sobre como Karl Marx tinha que vender e comprar um mesmo casaco na loja de penhores para pagar suas dívidas e se aquecer no frio de Londres. Como o próprio Marx já tinha pensado bastante sobre a produção do tal casaco, sobre a exploração do trabalho na fábrica têxtil, a mais-valia, essa coisa toda, Stallybrass pensa em outro percurso para o mesmo objeto.


A questão é que Peter Stallybrass começa o ensaio falando do momento em que sentiu a perda de um amigo que tinha morrido. Sentiu ao dar-se conta de que apresentava um trabalho vestindo uma das blusas que era do amigo e a viúva dele lhe doara. Peter diz que começou a chorar ali mesmo, sem conseguir explicar nada aos presentes. Por algumas páginas o texto avança falando dessa relação entre as roupas e os mortos. No dia em que terminei de ler o livro, estava no metrô, voltando para casa do trabalho. Respirei fundo, guardei-o na bolsa e olhei para baixo. Estava vestindo uma saia que foi de Dodora. Já faz quase dois anos que Dodora morreu e às vezes eu ainda me pego pensando que podia aproveitar que agora trabalho perto da casa dela e visitá-la; mas, claro!, não posso. E mesmo sempre separando roupas para tirar do meu guarda-roupa, as peças que ela me deu continuam ali, e não tem planos de sair. Então, percebi que as roupas que eram de Dodora são tão valorosas para mim que estão no armário - e às vezes vão comigo passear - sem que eu possa imaginar que elas tenham um preço.

1.6.14

algumas coisas são reais

outtake


Essas fotos de Helena são as que ficaram de fora do ensaio que fiz para a edição de maio da Revista Capitolina, sobre sonhos e Jorge Luis Borges.



outtake




Já aproveito o embalo de escrever aqui e deixo meus cinco links favoritos (sempre sofridamente escolhidos) dessa edição que acabou ontem. No mês de junho, o tema é "Corpo". Vem c'a gente! (: