segunda-feira, 13 de novembro de 2017

diário de oaxaca


"Ao saber que é minha primeira visita ao México, ele fala calorosamente sobre o país e me empresta seu guia de viagem. Que eu não deixe de ver a colossal árvore de Oaxaca: tem mais de mil anos, é uma maravilha natural famosa. Sim, respondo, ouço falar dessa árvore desde menino, vi fotos antigas, é uma das coisas que me fez colocar-me a caminho de Oaxaca."


"Boone prossegue falando sobre a riqueza botânica sem igual de Oaxaca, uma fronteira onde plantas de origem setentrional, como os abetos, misturam-se a plantas sul-americanas que migraram para o norte."


"Enormes pencas de balões de hélio esticam seus barbantes para o alto. Alguns parecem grandes o suficiente para erguer uma criança pelos ares. Alguns se desprenderam e foram parar em ramos de árvores na praça. (E outros, ocorre-me, subiram tanto que podem entrar no motor de um jato e fazê-lo em chamas - tenho uma súbita imagem muito vívida de tal ocorrência, mas é uma ideia absurda)."


"'a.C.', para esse povo, significa Antes de Cortés, a divisão absoluta entre pré-Conquista, pré-Hispânico e o que veio depois."


"É, percebi de repente, um sentimento de felicidade, um sentimento tão inabitual que demorei a reconhecê-lo. Muitas são as causas dessa felicidade, suponho - as plantas, as ruínas, o povo de Oaxaca - mas esse doce sentimento de comunidade, de pertencimento, sem dúvida está entre elas."


"Todos se espantam com minha súbita loquacidade e ficam fascinados com a ideia de que existem constantes de forma universais nas alucinações, uma possível base neurológica para a arte geométrica de tantas culturas".

"Sei que Oaxaca possui a flora mais rica do México. Agora vejo que também tem a maior riqueza e variedade de comidas. Acho que estou começando a me apaixonar por esse lugar."


"Penso na riqueza botânica que vemos aqui, não só as samambaias, mas todo tipo de outras coisas cujo grande valor passa desapercebido. Os conquistadores foram ávidos por prata e ouro e esbulharam suas vítimas para obtê-los, mas essas não foram as verdadeiras benesses que levaram para sua terra. As verdadeiras dádivas, desconhecidas pelos europeus antes da conquista foram o tabaco, a batata, o tomate, o chocolate, a abóbora, as pimentas, o milho, sem falar na borracha, na goma de mascar, nos alucinógenos exóticos, na cochonilha..."

"O poder e a grandiosidade do que vi tiveram grande impacto sobre mim e alteraram minha noção sobre o que é ser humano. Monte Albán, principalmente, revolucionou toda uma vida de pressuposições, mostrando-me possibilidades com as quais eu nunca sonhara."

Trechos do livro Diário de Oaxaca, escrito por Oliver Sacks.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

onde o videoclipe vira arte

Produtos audiovisuais como filmes de cinema e videoclipes tem suas próprias trajetórias e seus propósitos. Com as relações entre mídias diferentes, os pontos de contato entre cinema e televisão tem sido cada vez mais comum. Tem sido habitual, por exemplo, atores e atrizes que se consagraram no cinema estrelando produções para televisão e serviços de streaming. É também graças ao streaming que a nossa relação com videoclipes tem mudado drasticamente. Sem depender de horários específicos na televisão, artistas tem cuidado mais de construir seus discursos e suas estéticas através de ferramentas cinematográficas.

Vale contar que quando começa o burburinho nas redes sociais sobre o mais recente e maravilhoso videoclipe de todos os tempos, eu tenho um modo de lidar que é bastante particular. Vejo o clipe e comparo com All is full of love, da Björk. O clipe, gravado em 1999, teve direção do videoartista britânico Chris Cunningham e mostra uma relação erótica entre dois robôs. Os efeitos gráficos são impecáveis, a narrativa construída é emocionante e a voz de Björk só faz a gente ver amor em todas as partes (até na automação maquinal). É claro que usá-lo como comparação é um exagero da minha parte. A essa altura esse vídeo ganhou outro estatuto, depois de todo reconhecimento e prêmios que conquistou ainda na época de lançamento. Hoje já é objeto artístico: em mostra sobre a trajetória da cantora islandesa, realizada no MoMA em 2015, os robôs construídos para serem os protagonistas da história foram expostos junto com outros objetos que remetem à sua trajetória (como o vestido de cisne, de Marjan Pejoski).


Podemos convir que nem todos os videoclipes chegarão a este patamar de reconhecimento. Mas estamos em um momento em que grandes narrativas estão sendo construídas nesses pequenos formatos, cheios de ritmos e rimas. A pessoa que mais claramente tem transformado o videoclipe em algo cinematográfico chama-se Beyoncé Knowles e nada do que direi aqui é qualquer novidade. Desde o lançamento do álbum Beyoncé, que surgiu sem qualquer anúncio prévio em dezembro de 2013, com um clipe para cada música, a relação entre vídeo e canção na obra da cantora só ficou mais forte. Em 2016, ela levou a cinematografia a seu ponto mais alto: Lemonade foi lançado em 23 de abril de 2016, logo depois de um filme homônimo de 60 minutos ter sido exibido na HBO. A última faixa do álbum, porém, já era conhecida por seus fãs desde fevereiro daquele ano, porque às vésperas de sua apresentação no SuperBowl, Beyoncé lançou o clipe de Formation. A música foi apresentada ao vivo no maior evento televisivo dos Estados Unidos e foi alvo de polêmica por conta do pensamento conservador. Na letra da música, Beyoncé valoriza suas raízes e o clipe é cheio de referências a figuras históricas da luta negra no país. A crítica ao assassinato de negros por forças policiais e à displicência das autoridades a temas envolvendo essas populações (como as consequências do furacão Katrina em Nova Orleans) também é facilmente perceptível.


Só que Lemonade foi entendido como uma peça quase que autobiográfica de Beyoncé, sobre uma suposta traição de seu marido. Em 2017, Jay-Z então lançou o que também foi entendido como um pedido de desculpas pela traição: o álbum 4:44, com uma música de mesmo nome. Todo mundo gosta de uma bela história de amor, mas colocar essas obras recentes do casal Knowles-Carter como apenas uma forma de reconciliação perde um pouco da força do que eles estão fazendo, e isso fica claro sobretudo nos clipes que Jay-Z tem lançado. Entrevistado no Rap Radar Podcast, Jay-Z explica que não queria que os clipes fossem apenas "music videos", que fossem um retrato do que ele estava cantando, mas sim uma elaboração sobre temas maiores. E ele dá o exemplo do cartoon feito para a música The Story of O.J. que questiona como os negros foram — e são — representados na cultura popular (para saber um pouco mais do assunto, recomendo os textos de Suzane Jardim: "Dissecando as relações raciais através do caso OJ Simpson" + "Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana").


Depois do lançamento do álbum, os clipes foram aparecendo aos poucos no YouTube e cada novo era uma surpresa mais agradável que a outra. Adnis — com Mahershala Ali, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, por sua atuação em Moonlight; MaNyfaCedGod — com Lupita N’yongo, também vencedora de um Oscar, recitando o poeta persa Rumi; Moonlight — uma paródia sobre como seria se a série Friends fosse representada por atores negros; e Bam, gravado em Kingston, Jamaica, com Damien Marley, um dos filhos de Bob Marley.

Para seguir com o argumento, terei que continuar com mais um membro da família Knowles. Solange é irmã mais nova de Beyoncé, mas elas trilharam caminhos bem diferentes musicalmente. O cuidado estético, porém, é notável nas duas. A revista Interview aproveitou essa proximidade das duas — e o fato de que Beyoncé não dá entrevistas — e pediu para a primogênita entrevistar Solange sobre o álbum A Seat at the Table. Na conversa, elas falam sobre crescer em Houston, sobre as pessoas que as inspiraram, sobre as músicas que gostavam de ouvir. Beyoncé então pergunta sobre o tom de voz escolhido por Solange para as canções, ao que ela responde:

Foi bem intencional que eu cantasse como uma mulher que estava bastante no controle, uma mulher que poderia ter essa conversa sem berrar ou gritar, porque eu ainda sinto que quando mulheres negras tentam ter essas conversas, nós não somos retratadas como estando no controle, mulheres emocionalmente intactas, capazes de ter essas conversas sem perder esse controle.


Solange pretende então apresentar visões de mulheres negras que muitas vezes não estão representadas. Ela traz para a conversa, nesse lugar à mesa, seus pais e temas dolorosos como a não aceitação do próprio corpo ou cabelo. As batidas do álbum lembram o funk e o groove dos anos 1960, mas os assuntos tocados são recentes e históricos. Os videoclipes de Cranes in the Sky e Don't Touch My Hair apresentam apenas artistas negros em cena, como forma de rebater a pouca ou má representação que domina os meios de comunicação. Em entrevista para Tavi Gevinson, Solange deixou ainda mais evidente a importância da representação de alegria e felicidade ao mesmo tempo em que toca em pontos traumáticos.
A arte sempre vai refletir seu tempo e não vai ser sempre bonita e embrulhada a mão e entregue com um laço em cima. Eu me sinto muito bem de ter podido me permitir fazer as duas coisas. Eu me permiti, como uma jovem mulher negra, provocar alegria negra, e felicidade negra e mostrar que, sim, nós podemos estar em um espaço e ser felizes e exuberantes e nós podemos também provocar dor e raiva. Nós somos pessoas com nuances e devemos ter permissão para expressar essas coisas sem ter o contexto da “mulher negra com raiva”. Eu me sinto ótima porque eu fiz isso.


Lá atrás, deu pra ver que o vencedor do Oscar de Melhor Filme Moonlight apareceu como referência direta para Jay-Z. Mas foi ELEMENT de Kendrick Lamar estrear no YouTube para eu voltar a pensar em tudo que aquele filme tinha me feito sentir. O principal pensamento era sobre como se forma a masculinidade. Sobre como discutir gênero desconstruindo feminilidade é importante, mas como repensar símbolos de masculinidade deve ser cada vez mais fundamental. Em um contexto cheio de aparências ("Eu estou tão enjoado e cansado de Photoshop/Me mostre algo natural, como um afro em Richard Pryor") e ostentação — tanto material quanto sexual — Lamar apresenta em DAMN seu retrato e sua crítica ao mundo a que pertence, ao mesmo tempo em que garante que não vai escutar calado jornalistas dizendo que o hip-hop causou mais dano aos jovens negros nos Estados Unidos do que o racismo. Assim, vemos novas histórias sendo criadas em forma de rimas rápidas e vídeos curtos.

Se quando éramos adolescentes, passávamos horas na frente da televisão torcendo para o nosso videoclipe favorito estar entre os mais votados da parada das 18h, é com certeza uma sorte poder ver esses daqui quando quisermos e bem entendermos. Porque, afinal, não é por não estarem em exibição dentro de um museu que não podemos considerá-los obras completas — e bastante complexas — de relações sociais conflituosas e, ao mesmo tempo, fontes de apreciação estética através do uso de câmeras e ilhas de edição.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

para lembrar depois


Tem épocas que sinto falta de tudo. Uma saudade tremenda e uma dor pelo que passou. Essa tem sido uma dessas épocas e ainda não sei por quê. Às vezes acordo e sinto falta do cheiro de outra cidade, sinto saudades de pessoas que viveram pouco comigo, sinto um vazio grande e inexplicável e vou caminhando, prestando atenção dobrada às coisas, que é pra ter do quê sentir saudades no futuro, que é também pra não cair no buraco do grande vazio. Eu sinto saudades dos sorrisos daqueles que me diziam que não se pode voltar para lugares onde fui muito feliz e queria escrever uma carta perguntando então para onde se pode voltar. Ou nunca se volta? Porque dessa vez voltei. Eu acordei às cinco da manhã, peguei a mochila e fui para o aeroporto. No escuro, peguei a rodovia e em um horário que dificilmente estou acordada já estava em Florianópolis. Foram quatro dias ali e eu queria saber do que quererei me lembrar depois, para já deixar anotado aqui.






Quero me lembrar 1) de como me fascinam as estruturas geomorfológicas e de como é raro ver o sol se por no mar; 2) da sorte que tenho de que pessoas que não me conhecem abram suas casas para eu dormir, banhar, comer; 3) de que essas mesmas pessoas tem amigos e que me enxergo neles, na juventude deles, na perplexidade, na curiosidade, nas coreografias que fazem com os braços quando dançam; 4) de como eu me orgulho das amigas que fiz (pela internet, principalmente); 5) das explicações sobre 5a) reisados, congados e a presença negra na Ilha de Santa Catarina, 5b) corpos, trajetórias, atividades políticas, 5c) o poeta Cruz e Souza, dadas por um homem que estava logo ali na praça XV; 6) de como eu queria muito ir pro carnaval de Pernambuco; 7) do livro que eu estava lendo na época ("Seymour, an Introduction", do Salinger); 8) até do que eu deveria querer esquecer como 8a) as vezes em que fui parar no terminal de ônibus errado, 8b) essa minha mania de deixar escapar comentários ácidos na presença de pessoas com autoridade, 8c) a insegurança que sinto ao falar de coisas que sei, 8d) a imagem de gráficos de probabilidade enquanto o avião entrava em zona de turbulência; 9) da gata Tieta; 10) da majestade o gatinho que correu em nossa direção.


segunda-feira, 24 de julho de 2017

cômoda nova, quatro gavetas

Eu não devia falar dessas coisas. Já passa da meia-noite, seguro. A gente chegou em casa era o quê, onze-e-meia, né. A gente entrou num show de rock sem ingresso porque eu disse "se a gente quiser, agora dá pra entrar". A moça que cuidava da entrada estava no telefone e quem tinha os ingressos já estava num entra-e-sai. Eles foram na minha frente, o que é completamente impróprio porque eu, ao fazer coisa errada, já dou logo um sorrisinho de quem faz coisa errada. Tentei contrair os músculos, seria patético dar a ideia e afundar os planos. De qualquer modo não nos pegaram, ouvimos ainda três músicas. Voltamos para casa. No meu quarto, uma cômoda esperava para ser montada e foi aí que comecei a pensar nas coisas todas. O silêncio da noite sempre foi acolhedor para essas atividades manuais. No silêncio da noite já escrevi histórias, fiz desenhos, costurei animais de pelúcia. Agora giro uma chave phillips com a palma da mão. Já deve ser mais de uma da manhã, porque as janelas do prédio da frente estão quase todas apagadas. No sétimo andar alguém está acordado, o cara do quinto continua pondo roupa para lavar essa hora e parece que no primeiro dormiram assistindo programa de culinária. Mexer com a madeira assim me lembra meu avô, me lembra eu moleca serrando coisas, ouvindo o tempo todo "não mexe nisso que machuca o dedo". Machucar mesmo o dedo era quando entrava farpa, três dias com aquilo dentro, até não aguentar mais e minha avó pegar a agulha e enfiar nessa camada primeira da pele pra tirar a lasquinha. Meu avô teria levado pouco tempo pra montar a cômoda e ainda passava uma mão de verniz. Eu ainda tô me fazendo, vô. Um parafuso pára de rodar, por mais força e jeito que eu tenha (não tenho), o que faz com que eu me pergunte como que em um grupo de parafusos iguais enfiados em buracos cortados na mesma máquina a laser (o queimado da madeira me leva a crer que é assim que fazem os furos), alguns funcionem e outros não. Eu persisto até o cansaço (que vem rápido). Pulo para outro parafuso. Esse vai. O problema não é a chave nem a mão que a roda. O problema é a junção das três coisas, meu cansaço, essa mania da minha cabeça não parar de abrir portas. Eu dispenso a esses pedaços de madeira uma dedicação que não sabia que era capaz de ter. Por ninguém. E isso me leva a pensar em você. Me leva a pensar se você é possível, se alguém é possível, mas se você é possível. Porque eu queria que fosse. Mas eu não queria me esforçar, nem queria que você se esforçasse. Força a gente usa para parafusar esses móveis, força pra levantar esse lado que vai se ligar ao outro lado e já é quase duas da manhã, força para não fazer barulho cada um desses movimentos. Você é possível? Sem que eu te fale, será que você sente que no seu abraço meu corpo se amolece e eu espero que você decida o porvir? Eu vou girando o móvel calmamente na esperança de que todas as peças estejam juntas no final da rotação, ainda uso a roupa do show, uma bota, o jeans apertado e uma camisa elegante. O casaco sim tive a pachorra de tirar. Minha mãe dizia que roupa de criança tem que ser confortável pra criança poder correr, subir nas coisas, rasgar no joelho. Minhas roupas até hoje tem meio que ser assim porque eu vou querer montar uma cômoda à uma da manhã. É claro que é inapropriada a bota e que no dia seguinte as panturrilhas dariam seus gritinhos, enquanto a cômoda estrelava quase terminada no meio do quarto. Mas o problema mesmo é a palma da mão. O problema é que eu gosto de querer as coisas e eu gosto de fazer as coisas e eu gosto de começar e quando começo vou esquecendo de parar, até que um cansaço extremo me domina, escovo os dentes, tiro a bota, deito na cama. Eu penso uma última vez em você. E adormeço às três da manhã.

terça-feira, 18 de julho de 2017