21.6.15

quem lê tanta notícia?

Eu sou uma viúva do Google Reader. Muita gente da internet marota também. A gente nunca se adaptou à transformação e depois à extinção dessa rede social, em que seus contatos do Gmail compartilhavam um ou outro texto e você acompanhava discussões pontuais e, muitas vezes, discussão nenhuma, só o texto, só massa crítica ali, pá. E uns blogs pessoais pra gente seguir uma ou outra vida mais interessante que a nossa (ou com narrativas mais bem construídas e fotos com maiores resoluções). Hoje em dia a impressão que dá é que essas blogueiras casaram com seus fotógrafos de look do dia, e eu me tornei uma acumuladora de links (esperando essa modalidade de reality show). Criei um e-mail para conversa comigo mesma com o assunto "coisas que eu tava vendo" e que já chegou a seu limite.

Daí, resolvi não só me livrar de uma pá de coisas que estavam subutilizadas como inclusive achei que precisava dar uma curadoria melhor a textos que gostaria de não perder por ora. Os temas são bem diversos o que talvez mostre uma dificuldade em estabelecer prioridades na minha vida; ou, se quisermos ser otimistas, que tudo é prioritário e minimamente interessante pra mim.


Texto sobre o habitual recurso de desqualificar mulheres em suas argumentações durante discussões ao dizer que estão agindo com a emoção e não com a razão.
"Quero um modelo de discurso em que nós todos nos comportemos como adultos: geralmente calmos, tão racionais quanto for possível, e informados mas não controlados por nossas emoções. Eu gostaria de um modelo de discurso em que emoções estereotipadas femininas são menos estigmatizadas, e emoções estereotipadas masculinas - especialmente as destrutivas - não têm passagem livre."

Sem etiquetas, sem dramas, certo? O ensaio de Jordana Narin publicado pelo The New York Times é o vencedor deste ano no concurso sobre amor moderno que recebe textos de universitários americanos. Sempre evito textos que falem de "gerações", que tentem salvar ou condenar um conjunto de pessoas que tem em comum apenas viver na mesma era. Mas achei curioso como o tema de relações meio sem nomes surgiram esses tempos e o ensaio de Jordana chama essas figuras de o "Jeremy" de cada um de nós.
"Mas não chamar alguém, digamos, de "meu namorado", ele na real se torna outra coisa, algo indefinido. E o que a gente tem se torna intangível. E se é intangível, nunca pode acabar porque oficialmente não há nada para acabar. E se nunca acabar, não há encerramento real, não há oportunidade de seguir em frente."
Vanessa Friedman analisa algumas roupas usadas pela primeira-dama dos Estados Unidos em eventos oficiais. Começa meio incomodada por quão "menininha" a estética adotada aparenta ser, mas acaba com uma reflexão de que tudo bem o poder aparecer dessa forma. Há todo um debate sobre a masculinização do vestuário de mulheres em posição de comando (e embora Michelle não seja a presidente, ela tem um papel importantíssimo nos mandatos do marido), e Friedman propõe que se ache ok as vestimentas de Michelle:
"Como você apaga um estereótipo? Você o confronta, e força outros a confrontar seus próprios preconceitos sobre eles, e então você o domina. E fazendo assim você o desnuda de seu poder."
Miley Cyrus. Nunca dei bola. Mas curto muito as noções amplas de cultura pra deixar pra lá o impacto que a imagem de Miley tem criado. Nada de novo na Disneylândia quando a gente faz uma breve lista mental de quantos artistas-juvenis se rebelaram _ou tipo isso_ e pareceram assumir outras personalidades quando deixaram a casa do Mickey. Mas de uns tempos pra cá, Miley tem tocado em temas interessantes sobre corpo e sexualidade. Com relação à sua não identificação com ser mulher ou homem, o texto fala sobre expectativas postas sobre corpos alheios e - com uma visão que se alinha das teorias queer - alega que não precisamos tentar colocar pessoas dentro de caixas de orientação sexual ou identidade de gênero.
"Infelizmente, nós ainda somos tão rígidos em nosso pensamento sobre papéis desempenhados pelos gêneros que imediatamente associamos pessoas cujas experiências não exatamente se aliam a nossa narrativa-padrão em alguma categoria e as etiqueta como 'outros'. Policia-se o gênero (e especificamente a performance de gênero), e isso é muito nocivo."

Tá rolando esse mês Copa do Mundo no Canadá. A seleção feminina avançou para as oitavas de final onde foi derrotada pela seleção australiana, mas a cobertura é parca, o interesse é mínimo. Mil argumentos aparecem para tentar explicar o porquê, mas o único que me convence não é o de que a qualidade é baixa do futebol (afinal, todo ano a gente acompanha entediantes partidas de campeonatos estaduais e eles não deixam de ser transmitidos duas vezes por semana na televisão) e sim o de que não temos o hábito e o incentivo para acompanhar essas equipes. O texto publicado no The Atlantic é maravilhoso e compara o feminino com o masculino. A começar que tanto Marta quanto Neymar foram comparados várias vezes com Pelé (inclusive pelo próprio). Mas o valor monetário de cada um deles é vergonhosamente desigual. O texto é muito massa porque dá até sugestões, para que o futebol masculino se preocupe com o feminino e que a publicidade alie os ídolos de ambas as modalidades, o que já funcionou nos Estados Unidos. Claro que não basta, mas não atrapalha. E talvez evite que mais jogadoras deixem de jogar para trabalhar em empregos que pagam mais do que um salário mínimo.


(x) O amor acaba
Vídeo de Karina Buhr lendo trecho de poema chamado "O amor acaba" de Paulo Mendes Campos.

(x) Travel Guide for Mama
A diversidade de Nova Iorque pelas lentes de Sumeja Tulic em sua primeira viagem à cidade. O enfoque é o uso de hijab pelas muçulmanas que vivem ali e, através de entrevistas, constrói um guia com dicas e informações gerais.
"Esse guia de viagem é pensado para minha mãe, que começou a usa hijab 25 anos atrás. Onde quer que eu esteja distante de casa, em algum lugar do Ocidente onde o horizonte não está dotado de altas torres de mesquitas, eu penso na minha mãe e em como ela se sentiria onde estou. Eu me encaixo em praticamente qualquer lugar. Me encaixar é uma das minhas missões conscientes na vida. Minha singularidade é sutil; surge através do meu sotaque e do som do meu nome, Sumeja, que significa em língua islâmica "primeira mártir". Ao contrário de mim, minha mãe demonstra seu sistema de crenças expressamente e em geral ela expressa receio em um mundo não acostumado a seu hijab."
Foi um texto que circulou muito nas internets, esse de Oliver Sacks. O neurocientista escreveu sobre o câncer terminal e sua forma de lidar com a doença, como ele enxerga esse fim da vida e o que aprendeu em todos esses anos. Por conta desse texto, acabei chegando a outro, também de sua autoria, que foi publicado em português e que traz um relato sobre suas experiências com substâncias alucinógenas, chamado Estados alterados.
"Não posso fingir que estou sem medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Eu amei e fui amado; eu dei muito e recebi muito de volta; eu li e viajei e pensei e escrevi. Eu tive um intercurso com o mundo, o especial intercurso de escritores e leitores."

(x) Habibi funk 
Uma playlist com doze músicas árabes dos anos 1960/70 coletas de vinis do Marrocos, Líbia, Egito, Líbano e Síria.



O DailyMail analisou dados do OkCupid, um site ~de paquera~, e estabeleceu gráficos que expõem preferências etárias de homens e mulheres. O gosto está na dimensão privada da vida, digamos, mas talvez ao demonstrar certos padrões comportamentais possibilitam uma análise um pouco além do que é apenas particular de cada ser humano. Assim, os interesses dos homens por mulheres no site meio que se congela nos anos antes dos 25. O gráfico das mulheres é mais harmônico e tende a acompanhar suas próprias faixas etárias. Considerando a matéria da Vulture que trata de homens em Hollywood em papéis de protagonista que envelhecem na frente das telas e suas parceiras muito pelo contrário, fica ainda mais interessante a conversa.

Nem só sobre toda forma de amor ser válida é que está a conversa. Essa matéria da WIRED apresenta formas de sexualidade e de assexualidade que questiona se sexo é coisa evidente na vida de pessoas jovens e atraentes. Os conceitos envolvidos são novos e a Laura Pires mandou bem na seção "Visibilizar" escrevendo sobre o assunto para a Capitolina. (Por isso nem vou me arriscar a traduzir qualquer um dos termos expressos).

Um texto sobre violência policial no Brasil. Em inglês, infelizmente, mas com a comparação com os casos mais recentes de Baltimore e Ferguson nos Estados Unidos. Dá, na real, desespero na analogia, porque aqui a coisa parece ser ainda pior, porque não só os números são mais alarmantes como a aceitação da situação, a impunidade e a busca por políticas públicas controversas parecem piorar o quadro. Aqui não é Baltimore. É pior.

Na toada da História do Brasil, a notícia traz trechos de relatos de textos de pessoas escravizadas no território da América Portuguesa no século XVIII. Há uma certa mania de se amenizar problemas raciais no Brasil com discurso de apaziguamento e união das três raças. Com esse material, acho que já pode parar.

Especial do UOL com questionamentos interessantes sobre trabalhar menos, ter mais tempo livre, diminuição de jornada de trabalho e relação da tecnologia com a mão-de-obra humana.


(x) "Sexo é estratégia política"
Entrevista com Lovelove6, - Gabriela Masson - criadora da Garota Siririca e uma das desenhistas por trás do zine XXX.

(x) "Tudo o que eu faço é contra o jornalismo"
Entrevista de Eduardo Coutinho a Mariana Simões. Coutinho é uma das figuras do cinema brasileiro que mais me intriga, em aspectos muito variados. Provavelmente será uma figura presente por ainda mundo tempo nos discursos sobre nosso cinema documental. Ao mesmo tempo, me fascina como ele criou um estilo que parece ter que, de algum modo, morrer com ele. Nessa entrevista aspectos muito importantes de sua concepção de documentário e jornalismo aparecem bastante claras e mais me abre questões do que as resolve.

Entrevista com uma das minhas cantoras favoritas. Mas a graça mesmo é o ensaio fotográfico!

31.5.15

vou me perder, me afogar neste calor


Eu me perguntei se faz sentido essa frase de que a gente fotografa o que tem medo de perder. Eu me perguntei olhando pras fotos que se acumulam no meu HD e talvez eu fotografe justamente porque sinto que as coisas se transformam no tempo e, de alguma forma, se perdem em si. No fim, todos os momentos fotografados são decisivos, quando revisitados. Essas fotos da viagem à Ilha do Cardoso parecem trazer à memória um tempo distante. Porque muito estava em suspenso nas nossas vidas nessa época e tanto mudou desde lá. E ainda são fotografias necessárias para acalmar o coração como só o mar costuma acalmar, para fazer lembrar de como se dança o fandango e de como andavam os caranguejos à noite, para sentir saudades do melhor feijão da vida e de momentos maravilhosos.
















♫ John Cage - In a landscape

28.4.15

romance




















Ficha técnica


Título original:
Romance
Ano: 2008
Direção: Guel Arraes