quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

antes que o verão me alcance








É quase verão de novo. E as cores e os sorrisos do Rio de Janeiro ainda estavam dentro de um rolo plástico, escondido dos olhos da gente. O diminuto espaço também guardava uma quantidade absurda de lembranças, algumas que eu até tinha esquecido. Meu aniversário, Carnaval, outros aniversários, festas juninas. Eu poderia jogar essas fotos aqui e me esquecer delas pra sempre ou para quase sempre e quando eu voltasse a vê-las eu tentaria sentir cheiros, adivinhar a temperatura ambiente, entender o que estava passando na minha vida. Está cada vez mais claro que alcançar isso é impossível e, nessa impossibilidade, eu só arrisco dizer que essas imagens devem contar alguma história que eu ainda não dou conta de ler. Tateio sentidos nos fragmentos, esboço textos desajustados. Tenho um pouco de vergonha, da minha alegria, da minha preguiça, de mostrar e contar essas coisas. Às vezes parece que tudo tem mudado muito rápido mas talvez essas fotografias sejam uma honesta contribuição à crença de que - para além da beleza do mutável ou da instabilidade do contemporâneo - montes de felicidades cotidianas tem conseguido se manter.











quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

era 2 de outubro

Para sair da zona norte, um dos caminhos mais utilizados era a Ponte Cruzeiro do Sul. Desde muito pequena, então, eu via da janela do carro uma estranha construção em que pernas de homens ficavam penduradas entre grades. Eu pensava que os homens que escolhiam ficar nas janelas eram como eu, que assistia à televisão de ponta-cabeça, me balançava perigosamente em corrimãos, escalava as grades do portão da casa da vó. Demorou alguns anos pra eu entender que naquele prédio homens viviam mesmo era amontoados em espaços minúsculos, e levou ainda mais tempo para eu descobrir que um evento de quando eu tinha dois anos de idade provavelmente assombrava uma parcela dos donos daquelas pernas que eu via da avenida. O massacre tinha sido em 2 de outubro de 1992.

O Carandiru foi ao chão, virou parque mas abriga um memorial. O livro de Dráuzio Varella foi feito filme por Hector Babenco. "Diário de um detento" é um marco na nossa música e a obra de Sabotage, que estrelou o filme, recebeu uma homenagem fortíssima há mais ou menos um ano. Culturalmente, a memória resiste. Em termos de justiça, é doloroso lembrar: a soma dos 111 mortos - imagina-se que foi mais do que isso - viu os partícipes do massacre serem amplamente inocentados.


Ano que vem termina em 8. Jornais, sites, revistas, eventos acadêmicos vão falar de 1968. Vão falar da decepção socialista na Tchecoslováquia, da revolução moral francesa - menções a pílula anticoncepcional e à minissaia compõem o bingo - e com quase certeza absoluta haverá inúmeras discussões sobre o endurecimento do regime ditatorial no Brasil com a assinatura do Ato Institucional Número Cinco. Pouca gente vai lembrar de Tlatelolco, na Cidade do México, palco de uma ação militar contra estudantes em greve. O número de vítimas nunca foi consensual, variando de dezenas a centenas. O massacre foi em 2 de outubro de 1968.

O assassinato em praça pública de pessoas em um ato contestatório contra o governo mexicano foi documentado por Elena Poniatowska no livro La noche de Tlatelolco: Testimonios de historia oral. Passei a maior parte da minha viagem ao país lendo esses relatos perturbadores. O grande mérito da jornalista é apresentar depoimentos diversos coletados nos dois anos que se seguiram ao evento. O livro foi publicado pela primeira vez em 1971. Muitos dos depoimentos são contraditórios entre si e assim Poniatowska deixa claro que não há verdade absoluta. Por isso, apesar de eu sentir vontade de grifar algumas passagens, me contive. Não queria validar mais ou menos o que é documento histórico e que passa pela subjetividade de um monte de gente (que se posiciona sobre luta sindical, interesses estudantis, o papel da imprensa e as escolhas de polícia e governo). Queria que as palavras das vítimas tivessem um peso absoluto, em si mesmas, que fossem igualmente importantes e incomparáveis.


Conforme fui me aproximando dos relatos que falavam especificamente do dia, mais me lembrava do 2 de outubro paulistano. Decidi então ir a Tlatelolco ver a Praça das Três Culturas que tem esse nome porque o espaço é disputado por ruínas pré-colombianas, uma igreja da época da colonização e um conjunto habitacional no entorno. Famílias viam as ruínas, enquanto eu sentia mal-estar ao imaginar aquilo que os textos me contavam. Um grande grupo de jovens escolheu a praça para assembleia em meio a uma greve estudantil. Na semana anterior, em manifestação em favor da autonomia universitária, inúmeros estudantes tomaram a praça central da cidade, o Zócalo. Em Tlatelolco, homens de luvas brancas alvejaram o público, indiscriminadamente. O grupo de ação militar tinha o nome de Olympia, porque o país estava prestes a ser sede olímpica. A morte e a prisão de manifestantes foram caminhos para impor a ordem necessária para que um evento de magnitude mundial acontecesse sem ruídos. A memória das Olimpíadas de 1968 eu encontrei em loja de museu. A dos covardemente assassinados só vi no spray de anônimos pixadores.


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

excertos do meu diário

Nunca pensei que diários de viagem seria um gênero literário que me chamaria a atenção nem sequer imaginava que um dia eu, a senhora displicência, daria conta de escrever por tanto tempo em uma viagem. Acho que o primeiro diário de viagem que eu gostei de verdade de ler foi o Kimland, da Juliana Cunha, que já não se encontra para comprar (quem leu leu, quem não leu pode me pedir emprestado que eu empresto). Depois, rabisquei todo o Viajes - De la Amazonia a las Malvinas da Beatriz Sarlo. E, finalmente, entrei em uma fixação ao ler Diário de Oaxaca, do Oliver Sacks, e falei dele para cada pessoa que encontrei na época, e depois também, quando estava em Oaxaca e cercanias.

Fiquei em dúvida se trazia para cá as anotações que fiz nas três semanas que andei pelo México mas algumas amigas pediram que eu compartilhasse minhas impressões por aqui. Escrevo em pequenas notas porque me falta paciência para escrever uma narrativa coesa. Algumas anotações ficaram só no caderno, para fingirmos que esse conceito tão recente que é a "privacidade" significa alguma coisa.
No Museu Etnobotânico de Oaxaca - uma das grandes razões para eu ter colocado a cidade no meu trajeto - um cartaz dizia que servidor público pode falar em sua língua indígena. Lembrei do recente assassinato de índios não-contactados no Brasil, e de toda ideia que se tem no meu país de que indígenas não são sujeitos contemporâneos. É uma pena que o direito de muitos povos dependa da ignorância de um (nesse sentido, o Estado nacional brasileiro segue sendo uma metrópole e tanto).

No Museu de Filatelia de Oaxaca, eles tem uma coleção de cartas de Frida Kahlo, mas não é possível ler por completo cada uma delas, já que estão escritas na frente e no verso. Em uma das que abri, escreveu Frida a seu médico (ela o chamava de "queridismo doctorcito") sobre o aborto que teve em Detroit. Escrevia um pouco irritada porque o médico - o que fez o procedimento - falou algo sobre ter seu próprio tempo. Ela se perguntava se ele dizia isso a todas as mulheres que abortavam ou se pensava que ela realmente poderia ter um filho nas condições de saúde em que se encontrava. Dias depois, uma exposição em um centro cultural da cidade tematizava o aborto a partir de ex-votos de católicas que agradeciam a seus santos de devoção pela possibilidade de passar pelo procedimento de interrupção da gravidez. Como o México é uma federação composta por estados unidos, cada um tem uma legislação própria, que vai de décadas de prisão para mulheres a legalização até a 12ª semana.

As línguas me fascinam. A possibilidade de transmissão de comunicação verbal de pais para filhos e a elaboração comum de textos escritos dentro de um mesmo código. Me fascina também o conhecimento de outras línguas, a compreensão de sons não-habituais a nossos ouvidos. E então ver as "estelas" de Monte Albán traduzidas, aquelas inscrições zapotecas cravadas em pedras enormes me deixam atônita talvez mais do que imaginar como se rolaram pedras tão grandes monte acima, ou de ter lido que uma das estelas representava a elite do lugar, em que 5 de suas 6 figuras eram femininas.

Quando se viaja muito sozinha, vão se criando idiossincrasias. Uma delas é siga o barulho. Quarta-feira, em Oaxaca, segui o som de fanfarra e rojões e cheguei a uma festa que tomava a Avenida de la Independéncia, para irritação dos motoristas. Outra parte da festa estava no quintal da Igreja de la Soledad. Ali, jovens equilibravam uma grande bola incrustada em um grande pau em que se lia "San Sebastián Martír". Outros jovens dançavam e a fanfarra parecia ter começado uma canção conhecida deles. Alguns casais dançavam, aos saltos. Muitas das pessoas usavam camisas verdes. Ao meu lado, um carrinho vendia milho. Uma mulher, com camisa verde, aproximou-se para comprar uma espiga e eu aproveitei para ler o que estava escrito em letras brancas no seu peito: "Burocratas unidos". Não me ajudou a entender o propósito da festa mas achei um nome bem engraçado para um conjunto de festeiros. Dias depois, outra calenda - descobri que é assim que se chamam essas festas - com uma bola escrita "Sindicato do Poder Judiciário" cruzou meu caminho e achei igualmente engraçado.

Há que ser muito burro ou mal-intencionado para crer que existem culturas puras ou que faça algum sentindo, nesse extremo ocidente que é o continente americano, defender os pilares da sociedade ocidental. No mercado em Oaxaca, doces em forma de caveira dividem espaço na mesma prateleira com velas que tem a foto de João Paulo II. No dia seguinte à minha chegada à Cidade do México, um desfile de Día de Muertos tomaria conta da região central. S. me contou, enquanto me levava ao hostel, que dois anos atrás esse desfile não existia, mas que por ter sido representado em um filme recente de James Bond, adotaram a "tradição" criada por roteiristas de 007.

Ao lado da árvore gigante de El Tule - um Ahuehuete ou Sabino de mais de dois mil anos - um jardim, que ocupa área semelhante com rosas, margaridas, uma fonte, figuras recortadas em arbustos. O jardim é o justo oposto da árvore: sinal do controle e da racionalização do ser humano sobre a natureza.

Descobri que Porfirio Díaz, o presidente mexicano destituído pela Revolução de 1910, nasceu em Oaxaca. Díaz foi presidente do país por 35 anos e talvez uma das inúmeras figuras que inspirou Caetano Veloso a escrever os versos "será que nunca faremos senão confirmar / a incompetência da América católica / que sempre precisa de ridículos tiranos" na música Podres Poderes. Chama-se também Porfirio Díaz o personagem que dá o golpe de Estado em Terra em transe. Acontece que cada vez que passo por algum lugar da cidade que leva o nome de Díaz vem, do fundo da minha cabeça, a voz de Paulo Autran gritando "APRENDERÃO!". Glauber Rocha colonizou meu pensamento. [Depois que escrevi isso no diário, achei impróprio, porque Glauber passou sua obra toda tentando descolonizar pensamentos. Também achei curioso que Oaxaca foi a província onde nasceu Benito Juárez, o presidente mais popular da história mexicana]

N., um dos donos do hostel, falou sobre algo que havia caído com o terremoto, mas não entendi onde. Ele usou a palavra "panteón", o que me remeteu a uma construção greco-romana em homenagem a heróis. Como não compreendi, perguntei onde ficava, porque ainda tinha um dia inteiro na cidade. Ele me perguntou se eu sabia andar de bicicleta e em pouco tempo estávamos circulando pelas ruas dali. Entramos em um cemitério - era isso que significava, afinal, a palavra "panteón" - e seguimos em cima da bicicleta, olhando as lápides, algumas delas danificadas pelo tremor de dois meses antes.
Fui para a fronteira com a Guatemala, saindo de San Cristóbal de las Casas, em um grupo cheio de senhoras. Dessas meio idosas que viajam juntas e falam muitas bobagens. Uma delas me apelidou de "Chica de Ipanema", e eu só não a corrigi como sendo "Chica de la Subprefeitura de Santana" porque ia dar muito trabalho explicar e não seria nada sonoro. Passaram a viagem toda conversando e alguns assuntos até bastante interessantes, como a permanência de um mesmo partido há tantas décadas no poder. Em algum momento, elas começaram a falar sobre uma pomada feita à base de maconha, que eu descobri na Cidade do México que estava até bem na moda, sendo vendida ilegalmente nos trens do metrô com paracetamol. Uma disse a outra que ela era bem entendida nessas coisas de drogas, e a primeira respondeu que sim, porque tinha aprendido com a novela. E desatou a contar como descobriu que seu vizinho era traficante porque tinha os mesmos trejeitos que o personagem da televisão...

A maior parte do tempo que passei em Chiapas choveu. Na quarta-feira, ficamos na cama, eu, E. e os sobrinhos dela, assistindo a um filme sobre lendas mexicanas. A lenda de La Llorona apresentou a morte dos filhos da mulher como uma fatalidade, ao que E. interrompeu para contar que a lenda mesmo é que uma mulher, ao descobrir que foi traída pelo marido, afoga seus dois filhos no rio. Ao perceber o que tinha feito, tira a própria vida no mesmo rio e passa a vagar pelo mundo, chorando e gritando por seus filhos. Não satisfeita em me explicar melhor os meandros, E. me contou que dias antes um primo dela de um pueblo próximo, estava em casa e ouviu o choro da Llorona. Enviou para ela um áudio do choro e contou que os vizinhos tinham escutado também, mas ninguém teve coragem de ir à rua naquele momento. Apesar de não querer acreditar, meus pêlos do braço se arrepiaram quase imediatamente.

No ano em que conheci meus amigos mexicanos, estava na moda uma música chamada Yo no sé mañana, do nicaraguense Luis Enrique. Em San Cristóbal, escutei-a tocar em dois lugares muito diferentes e fiquei lembrando como na época em que a escutei pela primeira vez "não saber o amanhã" era fonte de grandes angústias. Cada vez que em uma festa ou em casa alguém a escutava, eu ficava um pouco desesperada porque não tinha respostas sobre se amanhã estaríamos juntos ou se amanhã se acabaria o mundo. Anos depois, a música remetia a uma boa nostalgia e a um certo alívio sobre, exatamente, não saber o amanhã. Passei a encará-la como uma versão da frase latina "Carpe diem", só que melhor porque dançável ao ritmo de salsa.

Visitando ruínas arqueológicas, lembrei-me do último trabalho de campo que fiz na faculdade. Um grupo de estudantes de História que levou 24 horas para chegar ao extremo sul do Brasil, na fronteira com a Argentina e muito próximo ao Paraguai. Ao longo de uma semana, percorremos diversos sítios que foram missões jesuíticas, espaços onde a Companhia de Jesus buscava angariar almas indígenas para seu dia do juízo. Essa relação entre catequizadores e indígenas por muitas vezes chegou a ser  também uma tensão entre religiosos e colonos que não disputavam exatamente as almas, mas os braços para trabalho escravo. Para além dos textos que deixaram na época da América portuguesa, os pedaços de pedras que restaram naquela região são indícios dessa história. Na última ruína que visitamos lá em 2012, ovelhas pastavam e o cemitério ao lado do que tinha sido a igreja tinha flores recentes. Ao debatermos isso, recordo de um ou dois colegas que tiveram a pachorra de sugerir que o cemitério atual e os corpos que morreram depois do período que nos interessava deveriam ser transferidos porque atrapalhavam os trabalhos arqueológicos. Até hoje desacredito dessa proposta aventada, tamanha arrogância que transmitia. Além da ignorância sobre o papel de alguma maneira sagrada dos mortos em relação a seus vivos e um possível desrespeito com as raízes guarani que ali existem, penso nessa ideia como um estranho caso de investigação histórica que relevava a passagem do tempo naquele espaço. (Vendo os montes de turistas que visitam construções zapotecas, mexicas, maias, me pergunto que serventia tem para as comunidades cercanas essas escavações arqueológicas. Para o Estado mexicano serve para preencher espaços nas notas de peso e para ganhá-las com os ingressos. Volto para casa com essa dúvida sobre os usos culturais da cultura ali)

No mesmo dia em que fui às Pirâmides de Teotihuacán, decidi conhecer a Basílica e Guadalupe (dica da Lari que me passou um link que explicava como fazer tudo isso e chegar destruída no hostel depois). A história da aparição da Virgem de Guadalupe era das minhas favoritas na mitologia que me formou. A bem da verdade, as histórias de aparições da santa eram um bom conjunto porque já não falavam de martírio. De alguma forma, era o triunfo da misericórdia, em que uma mulher surgia para acalentar seus filhos (no caso da Virgem de Guadalupe há uma clara associação com a Mãe Terra, ou com uma deidade similar à Pacha Mama dos povos andinos), ao invés de narrativas de irmãos que se matam, pessoas transformadas em estátuas de sal, deus testando crença e fidelidade de alguém pedindo sacrifício de seu filho.

Viajando sozinha, me perco de uma a duas vezes por dia. No dia 31, acordei, tomei café da manhã, lavei umas roupas e decidi ir ao Museu Frida Kahlo. Estudei mapas, saí do hostel, me perdi uma vez. Retomei o caminho certo, cheguei na frente da antiga casa da artista e duas filas em sentidos opostos estavam formadas: uma com quem comprou os ingressos pela internet e outra para os que como eu só chegaram. A esquina estava tomada de vans de turismo. Por ter pouca altura também tenho pouca paciência. Fiz contas rápidas e percebi que levaria pelo menos uma hora para entrar e achei que a espera e o ingresso não compensavam por um lugar lotado de gente. Fui ao mercado para almoçar e decidir o que fazer e lembrei que por te me perdido tinha descoberto onde fica a Cineteca Nacional de México. Ao perceber que sei menos de cinema mexicano do que de Frida Kahlo, decidi ver uma produção Canadá-México chamada Mis noches harán eco. E ainda estou maravilhada.

No dia 3 de novembro, fui ao Museu de Arte Moderna, que esteve fechado nos dias 1 e 2 de novembro pelo Día de Muertos. Na exposição de fotografias de Garry Winogrand, uma mulher, voluntária do museu, perguntou se podia me acompanhar naquela sala e fazer um exercício de olhar algumas imagens. Na primeira que escolhi, se via em primeiro plano uma jovem atravessando uma rua que supunhamos ser em Nova York nos anos 1960. Fui descrevendo a cena que tinha diante de mim para minha companheira de exposição até chegar à percepção de que a imagem me intrigava porque eu podia me colocar na posição do fotógrafo - querendo observar e guardar imagens desses dias, de tantos outros, das pessoas que amo e daquelas que nem conheço - e também na posição da mulher fotografada - andando há dias sozinha por caminhos citadinos.
Chegando de avião a São Paulo, de madrugada, fiquei observando como ia baixando o avião e como cidades iluminadas à noite compunham uma espécie de tecido rendado com figuras geométricas de tons amarelo-alaranjados. Os vulcões, as montanhas, deixei para trás e minhas paisagens voltaram a ser serras e prédios. Ou, para ser sincera, as paredes do meu quarto, a primeira coisa que arrumei quando cheguei em casa.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

diário de oaxaca


"Ao saber que é minha primeira visita ao México, ele fala calorosamente sobre o país e me empresta seu guia de viagem. Que eu não deixe de ver a colossal árvore de Oaxaca: tem mais de mil anos, é uma maravilha natural famosa. Sim, respondo, ouço falar dessa árvore desde menino, vi fotos antigas, é uma das coisas que me fez colocar-me a caminho de Oaxaca."


"Boone prossegue falando sobre a riqueza botânica sem igual de Oaxaca, uma fronteira onde plantas de origem setentrional, como os abetos, misturam-se a plantas sul-americanas que migraram para o norte."


"Enormes pencas de balões de hélio esticam seus barbantes para o alto. Alguns parecem grandes o suficiente para erguer uma criança pelos ares. Alguns se desprenderam e foram parar em ramos de árvores na praça. (E outros, ocorre-me, subiram tanto que podem entrar no motor de um jato e fazê-lo em chamas - tenho uma súbita imagem muito vívida de tal ocorrência, mas é uma ideia absurda)."


"'a.C.', para esse povo, significa Antes de Cortés, a divisão absoluta entre pré-Conquista, pré-Hispânico e o que veio depois."


"É, percebi de repente, um sentimento de felicidade, um sentimento tão inabitual que demorei a reconhecê-lo. Muitas são as causas dessa felicidade, suponho - as plantas, as ruínas, o povo de Oaxaca - mas esse doce sentimento de comunidade, de pertencimento, sem dúvida está entre elas."


"Todos se espantam com minha súbita loquacidade e ficam fascinados com a ideia de que existem constantes de forma universais nas alucinações, uma possível base neurológica para a arte geométrica de tantas culturas".

"Sei que Oaxaca possui a flora mais rica do México. Agora vejo que também tem a maior riqueza e variedade de comidas. Acho que estou começando a me apaixonar por esse lugar."


"Penso na riqueza botânica que vemos aqui, não só as samambaias, mas todo tipo de outras coisas cujo grande valor passa desapercebido. Os conquistadores foram ávidos por prata e ouro e esbulharam suas vítimas para obtê-los, mas essas não foram as verdadeiras benesses que levaram para sua terra. As verdadeiras dádivas, desconhecidas pelos europeus antes da conquista foram o tabaco, a batata, o tomate, o chocolate, a abóbora, as pimentas, o milho, sem falar na borracha, na goma de mascar, nos alucinógenos exóticos, na cochonilha..."

"O poder e a grandiosidade do que vi tiveram grande impacto sobre mim e alteraram minha noção sobre o que é ser humano. Monte Albán, principalmente, revolucionou toda uma vida de pressuposições, mostrando-me possibilidades com as quais eu nunca sonhara."

Trechos do livro Diário de Oaxaca, escrito por Oliver Sacks.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

onde o videoclipe vira arte

Produtos audiovisuais como filmes de cinema e videoclipes tem suas próprias trajetórias e seus propósitos. Com as relações entre mídias diferentes, os pontos de contato entre cinema e televisão tem sido cada vez mais comum. Tem sido habitual, por exemplo, atores e atrizes que se consagraram no cinema estrelando produções para televisão e serviços de streaming. É também graças ao streaming que a nossa relação com videoclipes tem mudado drasticamente. Sem depender de horários específicos na televisão, artistas tem cuidado mais de construir seus discursos e suas estéticas através de ferramentas cinematográficas.

Vale contar que quando começa o burburinho nas redes sociais sobre o mais recente e maravilhoso videoclipe de todos os tempos, eu tenho um modo de lidar que é bastante particular. Vejo o clipe e comparo com All is full of love, da Björk. O clipe, gravado em 1999, teve direção do videoartista britânico Chris Cunningham e mostra uma relação erótica entre dois robôs. Os efeitos gráficos são impecáveis, a narrativa construída é emocionante e a voz de Björk só faz a gente ver amor em todas as partes (até na automação maquinal). É claro que usá-lo como comparação é um exagero da minha parte. A essa altura esse vídeo ganhou outro estatuto, depois de todo reconhecimento e prêmios que conquistou ainda na época de lançamento. Hoje já é objeto artístico: em mostra sobre a trajetória da cantora islandesa, realizada no MoMA em 2015, os robôs construídos para serem os protagonistas da história foram expostos junto com outros objetos que remetem à sua trajetória (como o vestido de cisne, de Marjan Pejoski).


Podemos convir que nem todos os videoclipes chegarão a este patamar de reconhecimento. Mas estamos em um momento em que grandes narrativas estão sendo construídas nesses pequenos formatos, cheios de ritmos e rimas. A pessoa que mais claramente tem transformado o videoclipe em algo cinematográfico chama-se Beyoncé Knowles e nada do que direi aqui é qualquer novidade. Desde o lançamento do álbum Beyoncé, que surgiu sem qualquer anúncio prévio em dezembro de 2013, com um clipe para cada música, a relação entre vídeo e canção na obra da cantora só ficou mais forte. Em 2016, ela levou a cinematografia a seu ponto mais alto: Lemonade foi lançado em 23 de abril de 2016, logo depois de um filme homônimo de 60 minutos ter sido exibido na HBO. A última faixa do álbum, porém, já era conhecida por seus fãs desde fevereiro daquele ano, porque às vésperas de sua apresentação no SuperBowl, Beyoncé lançou o clipe de Formation. A música foi apresentada ao vivo no maior evento televisivo dos Estados Unidos e foi alvo de polêmica por conta do pensamento conservador. Na letra da música, Beyoncé valoriza suas raízes e o clipe é cheio de referências a figuras históricas da luta negra no país. A crítica ao assassinato de negros por forças policiais e à displicência das autoridades a temas envolvendo essas populações (como as consequências do furacão Katrina em Nova Orleans) também é facilmente perceptível.


Só que Lemonade foi entendido como uma peça quase que autobiográfica de Beyoncé, sobre uma suposta traição de seu marido. Em 2017, Jay-Z então lançou o que também foi entendido como um pedido de desculpas pela traição: o álbum 4:44, com uma música de mesmo nome. Todo mundo gosta de uma bela história de amor, mas colocar essas obras recentes do casal Knowles-Carter como apenas uma forma de reconciliação perde um pouco da força do que eles estão fazendo, e isso fica claro sobretudo nos clipes que Jay-Z tem lançado. Entrevistado no Rap Radar Podcast, Jay-Z explica que não queria que os clipes fossem apenas "music videos", que fossem um retrato do que ele estava cantando, mas sim uma elaboração sobre temas maiores. E ele dá o exemplo do cartoon feito para a música The Story of O.J. que questiona como os negros foram — e são — representados na cultura popular (para saber um pouco mais do assunto, recomendo os textos de Suzane Jardim: "Dissecando as relações raciais através do caso OJ Simpson" + "Reconhecendo estereótipos racistas na mídia norte-americana").


Depois do lançamento do álbum, os clipes foram aparecendo aos poucos no YouTube e cada novo era uma surpresa mais agradável que a outra. Adnis — com Mahershala Ali, vencedor do Oscar de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, por sua atuação em Moonlight; MaNyfaCedGod — com Lupita N’yongo, também vencedora de um Oscar, recitando o poeta persa Rumi; Moonlight — uma paródia sobre como seria se a série Friends fosse representada por atores negros; e Bam, gravado em Kingston, Jamaica, com Damien Marley, um dos filhos de Bob Marley.

Para seguir com o argumento, terei que continuar com mais um membro da família Knowles. Solange é irmã mais nova de Beyoncé, mas elas trilharam caminhos bem diferentes musicalmente. O cuidado estético, porém, é notável nas duas. A revista Interview aproveitou essa proximidade das duas — e o fato de que Beyoncé não dá entrevistas — e pediu para a primogênita entrevistar Solange sobre o álbum A Seat at the Table. Na conversa, elas falam sobre crescer em Houston, sobre as pessoas que as inspiraram, sobre as músicas que gostavam de ouvir. Beyoncé então pergunta sobre o tom de voz escolhido por Solange para as canções, ao que ela responde:

Foi bem intencional que eu cantasse como uma mulher que estava bastante no controle, uma mulher que poderia ter essa conversa sem berrar ou gritar, porque eu ainda sinto que quando mulheres negras tentam ter essas conversas, nós não somos retratadas como estando no controle, mulheres emocionalmente intactas, capazes de ter essas conversas sem perder esse controle.


Solange pretende então apresentar visões de mulheres negras que muitas vezes não estão representadas. Ela traz para a conversa, nesse lugar à mesa, seus pais e temas dolorosos como a não aceitação do próprio corpo ou cabelo. As batidas do álbum lembram o funk e o groove dos anos 1960, mas os assuntos tocados são recentes e históricos. Os videoclipes de Cranes in the Sky e Don't Touch My Hair apresentam apenas artistas negros em cena, como forma de rebater a pouca ou má representação que domina os meios de comunicação. Em entrevista para Tavi Gevinson, Solange deixou ainda mais evidente a importância da representação de alegria e felicidade ao mesmo tempo em que toca em pontos traumáticos.
A arte sempre vai refletir seu tempo e não vai ser sempre bonita e embrulhada a mão e entregue com um laço em cima. Eu me sinto muito bem de ter podido me permitir fazer as duas coisas. Eu me permiti, como uma jovem mulher negra, provocar alegria negra, e felicidade negra e mostrar que, sim, nós podemos estar em um espaço e ser felizes e exuberantes e nós podemos também provocar dor e raiva. Nós somos pessoas com nuances e devemos ter permissão para expressar essas coisas sem ter o contexto da “mulher negra com raiva”. Eu me sinto ótima porque eu fiz isso.


Lá atrás, deu pra ver que o vencedor do Oscar de Melhor Filme Moonlight apareceu como referência direta para Jay-Z. Mas foi ELEMENT de Kendrick Lamar estrear no YouTube para eu voltar a pensar em tudo que aquele filme tinha me feito sentir. O principal pensamento era sobre como se forma a masculinidade. Sobre como discutir gênero desconstruindo feminilidade é importante, mas como repensar símbolos de masculinidade deve ser cada vez mais fundamental. Em um contexto cheio de aparências ("Eu estou tão enjoado e cansado de Photoshop/Me mostre algo natural, como um afro em Richard Pryor") e ostentação — tanto material quanto sexual — Lamar apresenta em DAMN seu retrato e sua crítica ao mundo a que pertence, ao mesmo tempo em que garante que não vai escutar calado jornalistas dizendo que o hip-hop causou mais dano aos jovens negros nos Estados Unidos do que o racismo. Assim, vemos novas histórias sendo criadas em forma de rimas rápidas e vídeos curtos.

Se quando éramos adolescentes, passávamos horas na frente da televisão torcendo para o nosso videoclipe favorito estar entre os mais votados da parada das 18h, é com certeza uma sorte poder ver esses daqui quando quisermos e bem entendermos. Porque, afinal, não é por não estarem em exibição dentro de um museu que não podemos considerá-los obras completas — e bastante complexas — de relações sociais conflituosas e, ao mesmo tempo, fontes de apreciação estética através do uso de câmeras e ilhas de edição.