24.11.14

imagens sem nome

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"XIX

O rio que fazia uma volta atrás da nossa casa era a 
 imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem e disse: Essa volta que o 
rio faz se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás da casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem." 

Manoel de Barros, de O livro das ignorãças.

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Isso foi em setembro, na quermesse da festa da padroeira de Paraty. 

10.11.14

estava à toa na vida


Gilberto Gil  // Glow in the dark com Dave Rowntree // Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou + Seun Kuti & Egypt 80 // Tributo a Chico Buarque













♫ Arcade Fire - You Already Know

4.11.14

vossa excelência, o textão

Antes mesmo de ser modinha acusar adversárias de levianas, eu tinha esse medo. Sempre tive, de falar coisas desconexas ou facilmente refutáveis. Quase nunca escrevo textos no calor do momento porque abrem-se mil caminhos e fico parada no meio, não sabendo guiar as massas e muito menos as palavras. Sábia escolha ter cursado História. Posso escrever sobre o tempo que passou depois de ter mergulhado em um monte de fontes; fico numa cômoda posição de palpiteira do presente com a documentação do passado. Com um pouco da ressaca do período eleitoral, resolvi fazer meu próprio balanço. Capaz que textão não seja a musa desse verão; mas como militante anti-levianidade (e aqui estou de tiração de sarro, não achei nem Luciana Genro nem Dilma Rousseff levianas em suas colocações nos debates televisivos) só trabalhamos com textão.

A propaganda

Primeiro, estive pensando se o nível do debate eleitoral foi tão baixo quanto as pessoas disseram que foi. O fato de ter crescido nos anos 1990, quando era banal o baixo nível em suas mais profundas formas na televisão, me deixou um pouco insensível quanto ao que poderia ser considerado o grito de misericórdia. Houve eventos lastimáveis, sim, mas eu ainda não superei as propagandas de Dilma e Serra em 2010 com grávidas por todos os lados expressando a opinião dos candidatos sobre o aborto. 2014 trouxe uma campanha difícil, mas o PV apareceu com um candidato surpreendente que dizia coisas que Marina não se arriscava a mencionar em 2010 e o PSOL surgiu com Luciana Genro, muito melhor do que o Plínio, que era um velhinho carismático sangue-nos-olhos mas ainda fazia seus principais corpo-a-corpo na missa das manhãs de domingo. A melhor surpresa foi a cobertura feita pela Agência Pública que desafiou os candidatos a explicarem melhor suas propostas, desmentiu-os com base em dados e resumiu o tal do programa eleitoral gratuito diariamente. (As manifestações de ódio que por ventura surgiram, nós não reproduzimos que é pra ver se ficam de fora dos anais da História)

A Intentona Comunista e Junho de 2013

Ter estudado História às vezes é problemático porque não sabemos muito bem a aplicabilidade da coisa. Sabemos, por exemplo, que não necessariamente as pessoas aprendem com a História e que dificilmente se sustenta a tese de que ela se repete. Ainda assim, adoramos analogias e comparações. Por um motivo xis, em determinado momento do curso, precisei entender o que foi a Intentona Comunista, de 1935. A tentativa de golpe articulada pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB) contra o governo de Getúlio Vargas aconteceu em pontos esparsos do país e foi reprimida e derrotada com alguma facilidade, deixando, porém, algumas cisões sociais. Cabe dizer que o Exército foi uma das instituições mais afetadas por suas diferenças ideológicas (e talvez pouca gente saiba que na Ditadura Militar foi a instituição que junto com as universidades e partidos políticos teve mais membros perseguidos e desaparecidos). Fato é que a Intentona, embora um fato isolado e meio esquecido nos capítulos de História do Brasil, foi um marco na vida política do país. Alguns comunistas, que até então seguiam a linha leninista-stalinista do PCB, acharam equivocados os cálculos do partido e se tornaram trotskistas. Outros, acharam esses cálculos tão errados que sequer se mantiveram comunistas; Carlos Frederico Lacerda, cujo nome era uma homenagem que o pai prestava a Marx & Engels, foi um dos que, poucos anos depois, mudou de lado e se tornou símbolo da direita brasileira.

As manifestações de Junho de 2013 tive que acompanhar à distância, e de algum modo agradeço do fundo do meu coração por não ter precisado ver bandeiras de partidos políticos serem queimadas nas ruas aos gritos de "sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor". Isso não quer dizer que os eventos daquele mês sejam menos interessantes ou misteriosos para mim. Não foram aqueles dias similares à Intentona de 1935; os objetivos, os agentes políticos. Mas, quando as pessoas voltaram para suas casas, algumas foram mais para a esquerda, rompendo com o partido que há doze anos está no poder no governo federal; outras, porém, acharam que o caminho é esquecer a luta de classes e clamar por uma união nacional que transformará o país mantendo a maior parte das coisas como estão. Rodrigo Nunes, no texto Os protestos e as eleições: até aqui, Cassandra está ganhando, dá um panorama interessante do quadro político dos últimos anos:

"De forma mais ou menos consciente, os ex-petistas e 'batalhadores', anarquistas e professores públicos, ciclistas e favelados, ambientalistas e afetados pela Copa, garis e midialivristas que estiveram nas ruas no último ano anunciavam que, nas atuais condições, não somente a energia de transformação do atual projeto está se esgotando, como ele começa a fortalecer o seu contrário. Foram tratados pelo sistema político, pelo próprio PT, como os troianos trataram a princesa Cassandra: incoerentes, irrazoáveis, ignoráveis. É cada vez mais evidente, porém, que 'mudar mais' ou 'seguir mudando' dependerá, nos próximos anos, daquilo que se saiba conquistar nas ruas, com ou sem o apoio da esquerda oficial. Por isso, é provável que ainda veremos mais do ciclo de protestos aberto em 2013."

Violência política

Nos meses que estive na Argentina - e por isso não estava nas Manifestações de Junho de 2013, fiz uma disciplina sobre ditaduras militares no país e no Uruguai. O tema da primeira aula foi violência política e analisamos a questão venezuelana. Caberia muito bem o caso boliviano. Ou as últimas eleições no Brasil. A parte mais esquisita de estudar e viver esses acirramentos políticos é perceber que quanto mais as pessoas percebem que há uma dicotomia, mais essa dicotomia se acentua. Assim, ler e comparar os programas políticos talvez nem faça tanto sentido. Porque os programas políticos estão cheios de ótimas propostas que nunca serão aprovadas no Congresso Nacional porque a maior parte dos eleitores na hora de escolher o Legislativo deixaram de lado partidos grandes e com linhas ideológicas claras para dar espaço para partidos que forçarão (e forçariam os outros candidatos) a negociações inesgotáveis. Por isso, já escreveu Juliana Cunha, a escolha do candidato de forma asséptica torna-se inviável no mundo dos textões; porque, no fim das contas, com a polarização todos nós nos sentimos de alguma forma forçados a escolher um lado. Às vezes de forma positiva, comprando o discurso e as ações de um dos lados; às vezes só negativamente, sacando que posso não ser desse grupinho mas que com certeza não é com aquele outro que quero estar. Não à toa, o embate mais interessante no meu Facebook nesses tempos foi aquele entre anarquistas e militantes do PSTU (a saber: os anarquistas defendendo voto crítico no PT, enquanto PSTU defendia voto nulo). Pode ser um jeito tonto de se escolher e, de fato, a polarização leva a mil simplificações que levam a mil papos bestas, mas ninguém disse que a política está assim tão acima da banalidade.

O pessimismo alegre

Pouco tempo antes do segundo turno, resolvi ler a entrevista gigantesca do Eduardo Viveiros de Castro para Eliane Brum. Pouco antes do primeiro turno, o antropólogo declarou voto na Marina. Entendo e concordo com a oposição que ele faz ao governo petista, sobretudo no que tange à situação do meio ambiente. Depois de ler esta entrevista, me perguntei se eu estaria coadunando cegamente com uma política anti-indigenista. Ao mesmo tempo, por mais que a base ruralista se sinta à vontade com esse governo, suponho que estaria ainda mais com o outro. E então? Me perguntei se a esquerda nascida antes de 1989 algum dia dará conta das questões ambientais (a direita - e eu lido sim com essas divisões; e eu acredito sim em luta de classes e não na separação entre esforçadosXpreguiçosos - acredito que não). O Mujica, no Uruguai, por mais fusquinha-azul-e-chinelo-na-nomeação-do-ministro que seja, não fez avanços nesse campo e, a bem da verdade, permitiu que indústrias se estabelecessem em regiões onde não deveriam estar. Como Viveiros de Castro defende o "pessimismo alegre", acho que me rendi a essa forma de encarar nossa experiência institucional, torcendo para que a esquerda incorpore e não apenas mencione transformações mais profundas no seu lidar com o mundo.

A função social dos mortos - e dos ex-presidentes

Na véspera da eleição, Aécio foi visitar o túmulo do avô. (Para ser bem sincera, me incomodava com os primeiros desenhos do embate político ser composto por dois netos - Eduardo Campos e Aécio Neves - e por uma filha - Luciana Genro - de políticos importantes em seus estados, embora Luciana seja a que nunca recorreu à figura do pai nas aparições públicas). Poucas semanas antes, estava com a viúva de Eduardo Campos. Muitas pessoas julgaram essas atitudes. Demorei muito para pensar em ter uma opinião sobre o assunto. No fim das contas, acho que essa é a função social dos mortos, serem disputados. Por outro lado, os dois maiores partidos do Brasil têm se acostumado a indicar seus candidatos à presidência a partir da benção de seus ex-presidentes. Os mortos talvez não fortaleçam tanto os vivos; mas é possível que os vivos estejam enfraquecendo as bases.

Fica de experiência

Além de ser maníaca por textões, como já deu para reparar neste post, também sou louca por análises sobre poder e sua estrutura. Só isso explica o fato de eu ter conseguido chegar à segunda temporada de Game of Thrones, mesmo detestando histórias de zumbis, dragões, feiticeiros, estética medieval, personagens de RPG. Por isso, no pós-eleições fiz questão de fechar esse ciclo tentando entender um pouco mais do Pacto Federativo (que acho que junto com o peso do Poder Legislativo é o ponto mais subestimado do nosso processo eleitoral e abre brecha para que uns e outros pensem que separar estados da Federação é o passo certo a ser dado; poderia ser (afinal, todos os países da América em algum momento tiveram que proclamar suas independências) mas não com motivações racistas e xenófobas de quem ainda não entendeu que perdeu a Revolução de 1932 porque segue sendo feriado em São Paulo). O Estadão fez um infográfico massa que derruba altos mitos que foram compartilhados à exaustão em redes sociais; desde Minas Gerais não elege presidente, passando por pesquisas acertaram dentro da margem de erro e terminando com uma análise de que não há crise na representatividade. Por fim, se estudar História nos leva a ver como a esquerda foi mudando sua visão sobre a democracia, desde o repúdio até sua defesa, parece que é cada vez mais latente defender esse valor que pode ser abstrato e cheio de falhas, mas é a garantia de direitos que não faz sentido perder (lembrando que democracia não é só a vontade da maioria e sim, também, a garantia de se verem representadas as minorias).

27.10.14

em costas, de costas



Projeto de curadoria com fotos da amiga que não gosta de posar para a câmera.
(No Uruguai e em Trindade-RJ)

 









20.10.14

nunca deixamos de ser românticos

Era com goles de chá e petiscando biscoitos que discutíamos como o Romantismo nunca acabou. Já era quase madrugada, mas ali estávamos, falando sobre como a nossa estrutura de pensamento é insuportavelmente romântica e que isso nada tem a ver com amor. Naquela época, para ser bem sincera, amor era a última coisa que nos importava.

Ontem terminei de ler Jamais fomos modernos, de Bruno Latour, e rabisquei com sono em sua página final: "Jamais fomos modernos, nunca deixamos de ser românticos". Esse é um texto de análise política disfarçada de resenha de livro e vice-versa com apontamentos levemente pessoais. Em ocasiões diferentes em salas de aula os pensamentos de Latour apareceram e eu só pude perceber isso agora. Li sozinha essa obra e desconfio que entendi no fim das contas muito menos do que gostaria. Ainda assim, caí em um tipo de maravilhamento causado pela falsa ideia de que por coincidência cheguei a esse livro na época das eleições. A primeira publicação, em francês, dessa obra é de 1991. Nota-se, sobretudo no final, que a queda do muro de Berlim era uma pauta ainda. Enquanto as propagandas políticas na minha televisão digladiavam-se entre um "muda mais" e um "o Brasil quer mudar", eu transcrevia o seguinte trecho:
"Se existe algo que somos incapazes de fazer, podemos vê-lo agora, é uma revolução, seja na ciência, na técnica, em política ou filosofia. Mas ainda somos modernos quando interpretamos este fato como uma decepção, como se o arcaísmo tivesse invadido tudo, como se não existisse mais um depósito de lixo onde fosse possível empilhar o que foi recalcado."
As revoluções, ao longo do tempo, foram se tornando tão autoconscientes e tão desesperadas em romper com o passado que por vezes deixaram de se dar conta de que o passado continuava presente. A crença dos modernos em si mesmos parece ter tampado parte de suas visões para todo o resto.

Se jamais fomos modernos, como diz Latour, porque jamais os ocidentais deixaram de se diferenciar como julgaram dos outros povos, o Romantismo como matriz de pensamento emerge em qualquer conversa banal. A supremacia do indivíduo, a pessoa contra o mundo, contra a sociedade que o rodeia. Os românticos são só uma parcela da história da pretensa modernidade, mas provavelmente sua face mais visível no cotidiano. O amor a uma pátria ficcional, a admiração que nutrem por uma natureza transcendente que está dissociada do mundo dos humanos. Dizer-se "brasileiro com muito orgulho, com muito amor", colocar-se em uma disputa democrática como antagonista absoluto de alguém, imaginar que é melhor arriscar a vida de algumas comunidades indígenas (que são tratadas como "artefatos" de identidade nacional de um passado distante e não como agentes políticos em debate no nosso próprio tempo) em prol da modernização a qualquer preço ornam bem com o ser moderno. Que não somos.

No primeiro turno dessa eleição presidencial, me causava um certo incômodo que uma candidatada falasse de nova política e um candidato respondia sobre como vai mal a economia, e em tréplica era preciso mencionar programas sociais e outra procurava espaço para condenar a exploração e um último defendia o meio ambiente (tinha dois que eu sequer me arriscaria lembrar do que diziam sem sentir uma espécie de enojamento). A questão é que é nada disso existe em si e supor prioridades é ainda ter um pensamento que não conecta pontos. E pra quem pense que estou brincando de pós-modernista num barulho desses e que não me importa quem seja eleito, digo que a mim importa muito.
"Se explico que as revoluções tentam abolir o passado mas não podem fazê-lo, pareço ser um reacionário. Isto porque, para os modernos - assim como para seus inimigos antimodernos, assim como para seus falsos inimigos pós-modernos - a flecha do tempo não possui qualquer ambiguidade: podemos ir sempre em frente, mas então é preciso romper com o passado; podemos decidir voltar atrás, mas então precisamos romper com as vanguardas modernizadoras, as quais rompiam radicalmente com seu passado."


Dados do livro


Título: Jamais fomos modernos
Autor: Bruno Latour
Editora 34